"Uma temporada no escuro", de Karl Ove Knausgård

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          O quarto livro da série "Minha luta", do escritor norueguês Karl Ove Knausgård, revisita memórias de um tempo transformador na vida do autor. Os acontecimentos narrados neste livro tomam forma em um vilarejo no norte da Noruega, para o qual Karl Ove decidi rumar quando completa dezoito anos de idade; a desestruturação da família, a transição da adolescência para a vida adulta e o anseio de se tornar um escritor foram os três pilares que basearam sua decisão de sair de casa e tentar a sorte em um vilarejo totalmente desconhecido. Enquanto seu pai tenta construir uma nova família com sua nova companheira, a mãe se adapta a morar sozinha na casa que costumava ser da família. O irmão de Karl Ove segue na vida universitária em outra cidade; "Uma temporada no escuro" retrata uma família que foi separada da forma mais natural possível: pela ambição de cada um de se adaptar com um novo estilo de vida, e, de certa forma, pelo amadurecimento e a chegada da vida adulta de ambos os filhos. 

          A arte da escrita é descrita de forma nada romantizada durante as mais de quatrocentas páginas da versão brasileira do livro (Companhia das letras, traduzido por Guilherme da Silva Braga); Karl ove trabalha durante o dia como professor em uma escola primária do vilarejo, e mesmo não gostando de ser reconhecido como alguém que ensina crianças, aprende a tirar proveito daquela situação. Ele encara cada fase de sua vida como algo finito, ou seja, para Knausgård todos os momentos são encarados como mecanismos transformadores da pessoa que ele irá se tornar no futuro. Na sua visão, o trabalho de professor no norte da Noruega é a forma que ele encontra de se sustentar, enquanto utiliza seu tempo para escrever e encontrar seu estilo literário. 

          As frustrações e descobertas da vida sexual do jovem de dezoito anos podem até ser íntimas demais em certos casos. Em "Uma temporada no escuro", o leitor irá encontrar um Karl Ove que fuma maconha, que bebe, que tem ânsia pelo novo, que procura incessantemente perder a virgindade, que tenta ao máximo não decepcionar a si mesmo e que, acima de tudo, busca um sentido para sua vida. Acho que cada ser humano vivo, que ainda tem um coração batendo e um cérebro funcional, consegue se identificar em algum momento com os anseios do autor norueguês. 

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A vida é bela (1997), de Roberto Benigni



          Depois de acabar o filme, enquanto conversava com amigos sobre o magistral longa que eu havia acabado de consumir, consegui entender o que faz de "A vida é bela" um filme tão incrível. O título é muito autoexplicativo, e enganam-se aqueles que acham que o objetivo principal do filme é relatar a vida em um campo de concentração, as consequências do nazismo e fascismo e a vida durante a guerra. Acredito que esses sejam temas que apenas circulam a trama principal. O objetivo que o filme tem enquanto obra crítica é mostrar que a vida realmente é bela para alguns, mesmo quando a sociedade não quer que ela seja, e que o otimismo e amor de um homem podem até desconstruir a vida em um campo de concentração no qual ele e seu filho estão aprisionados. As cenas do filme são excelentes no quesito de diversidade de sentimentos em uma mesma sequência. Em muitas cenas eu não sabia se chorava, ria ou ficava tenso. Mesmo se passando em um campo de concentração, mesmo lidando com a morte total da humanidade no período que a humanidade viveu durante o nazismo e o fascismo, "A vida é bela" consegue ser um filme belo. O filme é italiano, dirigido e atuado por Roberto Benigni. Guido (Roberto Benigni) é um judeu dono de uma livraria, casado com Dora (Nicoletta Braschi) e pai de Giosué (Giorgio Cantarini), e com certeza o homem que leva a vida com a maior serenidade alcançada pela humanidade. A família é levada a um campo de concentração nazista, os pais são forçados a trabalhar, e Giousé precisa se esconder constantemente dos soldados para não ter o mesmo fim das outras crianças. Para fazer com que o filho não seja psicologicamente atingido pela rotina no campo de concentração, Guido conta para o filho que na verdade todos ali está jogando um jogo, e trabalhando por pontos para conseguir o prêmio máximo: um tanque de guerra. O filme é lindo e aterrador ao mesmo tempo. 

Os sonhadores (2003), de Bernardo Bertolucci - recomendo esse filme com todas as minhas forças.

          Henri Langlois foi um dos maiores arquivistas de materiais cinematográficos da história do cinema, e obviamente um dos maiores cinéfilos de todos os tempos. A sua relevância no filme Os sonhadores (2003) é baseada em um de seus legados: o Cinémathèque Française, uma organização de cinéfilos que até hoje tem um dos mais amplos arquivos de cinema da história. O fascínio de Matthew pelo Cinémathéque, um jovem que decidi partir dos Estados Unidos para aprender sobre cinema e a língua francesa em Paris, leva o garoto a trilhar caminhos muito diferentes daqueles que estava acostumado em seus primeiros dias na capital francesa. Quando conhece Isabelle e seu irmão Theo, ambos cinéfilos como ele, a vida de Matthew em Paris começa a se transformar, com sentidos e rumos diferentes dos de praxe.



           Além do clima cinematográfico, e do fervor nas discussões sobre cinema entre os três jovens, a política e as manifestações que estavam acontecendo durante a década de sessenta na França são particularmente marcantes. O fervor das manifestações estudantis que buscavam o pensamento progressista e libertário, afirmando que o conservadorismo deveria ser deixado de lado, mostra uma sociedade que buscava mais liberdade. O tipo de liberdade que não é de graça, e sim conquistada, e no caso da França de 1968, as lutas sociais concretizaram-se em uma grande greve no dia 30 de maio de 1968. É nesse clima político que os jovens fumam, bebem, transam, debatem, consomem cinema e uns aos outros. Matthew em alguns momentos é contraditório em seu discurso, principalmente quando diz que é contra qualquer tipo de violência, mas não faz críticas ferrenhas ao governo dos EUA que estava envolvido na Guerra do Vietnã. O fato de Theo ter um estátua do Mao no seu quarto e recitar passagens do Livro Vermelho diz muitos sobre os seus ideais. Durante todo o longa, Isabelle não se envolve nas conversas. Ela prefere falar dos prazeres da vida, e não apenas discursar, mas também experimentar.



          A primeira visita à casa dos irmãos, Matthew conhece um pouco mais da família dos dois. A mãe britânica aparece apenas em duas cenas, e não tem uma maior participação. O pai, poeta que fez um monólogo durante o primeiro jantar com Matthew, não tem uma relação muito boa com os filhos. Quando os dois decidem sair para viajar por alguns dias, Matthew, a pedido de Theo e Isabelle, compartilha da casa vazia com os dois irmãos franceses. O quadro de Delacroix que Matthew encontra no seu quarto provisório diz muito sobre alguns conceitos que o filme aborda e discute: a liberdade, a arte sem pudor e o repúdio a tudo que é autoritário e conservador. Nos dias em que os três jovens passam juntos, além de discutirem sobre cinema e de beberem os vinhos finos dos pais de Theo e Isabelle, transam muito entre si e tentam descobrir que tipo de relação está acontecendo naquela casa parisiense. Já aviso de antemão que o filme não tem pudor nenhum em retratar as cenas de sexos. A primeira transa entre Isabelle e Matthew acontece no chão da cozinha, enquanto que Theo prepara um omelete com um cigarro pendendo do canto da boca. Talvez não seja o melhor filme para os conservadores de plantão. As cenas de nudez, em minha opinião, retratam a busca pela liberdade, a nudez de preconceitos e total despreocupação com padrões. Recomendo esse filme com todas as minhas forças!




Algumas músicas da semana

1. One point perspective - Tranquility base hotel & casino (Arctic Monkeys)

I fantasize, I call it quits
I swim with the economists
And I get to the bottom of it for good
By the time reality hits 
The chimes of freedom fell to bits 
The shining city of the fritz
They come out of the cracks
Thirsty for blood




2. The happiest days of our lives - The wall (Pink Floyd):

When we grew up and went to school
There were certain teachers who would 
Hurt the children any way they could
By pouring their derision
Upon anything we did
Exposing every weakness




3. Heaven knows I'm miserable now (The smiths):

I was happy in the haze of a drunken hour 
But heavens knows I'm miserable now
I was looking for a job, and then I found a job 
And heaven knows I'm miserable now



4. Feel - Manipulator (Ty Segall):

Feel the creeps 
In the sky
Let them live
In each other's eyes
Existing in the mind 
Existing in the night
Watching you
Watching me 
Watching what we do








"A Sombra do Vento", de Carlos Ruiz Zafón

     



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     O crescimento do autoritarismo, o início de uma guerra e as mudanças de uma sociedade perante maus presságio são sempre fatores difíceis de serem percebidos pela grande parcela da população; a realidade brasileira demonstra isso muito bem. As pessoas trabalham, têm relações, saem nos finais de semana, escrevem, comem, bebem, e em suma, seguem com suas vidas. "A Sombra do Vento" é um livro que acima de muitas coisas consegue demonstrar isso muito bem. Carlos Ruiz Zafón arquiteta sua trama em duas principais linhas do tempo - o pós guerra em Barcelona, e o período antes dos terríveis acontecimentos - ambos marcados pela presença dos livros, de leitores e de relações pessoais. O romance consegue demonstrar o amor em diversas esferas; o amor pelas palavras, pelas pessoas e pela vida. Mas também relata o ódio - o sentimento que consegue matar, extinguir às cinzas e destruir instituições já muito bem estabelecidas. Daniel Sempre trabalha em uma pequena livraria nas ruas de Barcelona. Como é muito provável de se deduzir, compartilha do amor pelo livros devido à influência do seu pai. Em uma madrugada em que os pensamentos do filho do livreiro beiravam a sombria morte de sua mãe, o pai do garoto decide levá-lo até o Cemitério dos Livros Esquecidos. Lá o pai diz para o filho escolher um livro, algum que tivesse de algum modo lhe chamado atenção, que poderia preencher os vazios da vida do garoto e acalentar seus sentimentos durante dias difíceis. Nos dias seguintes, Daniel se apaixona por um livro chamado "A sombra do vento", e fica estranhamente interessado na misteriosa história de vida e do desaparecimento de Júlian Carax, o escritor do romance. Ao longo dos anos o autor torna-se um amigo próximo, mesmo tendo Daniel nunca o encontrado, mas as dúvidas que pairam sobre sua cabeça o fazem seguir cada vez mais as pistas que o desaparecido escritor deixou para trás. Por muito tempo baseia seu projeto de vida em saber mais da história do autor. Quer saber por que Julian foi morar em Paris, o que fazia lá, quem era o amor da sua vida, quais foram suas decepções e conquistas. A segunda linha temporal da narrativa toma conta de relatar a vida de Julian. Essa parte da história é contada através de relatos, confissões e cartas de amigos, amores e inimigos de Julian. Zafón consegue criar personagens muito límpidos no quesito personalidade; quase todos são reais e realmente carismáticos. Fermín, perseguido por policiais e forçado a morar nas ruas sombrias da cidade, torna-se grande amigo de Daniel e seu pai. Quando os dois descobrem o talento e a paixão daquele homem enigmático para com os livros, decidem empregá-lo na livraria familiar. Em minha opinião, Fermín é o personagem mais carismático e engraçado da obra inteira, muito mais que Daniel ou qualquer outro personagem "principal" da trama. A violência que assola a Espanha, e principalmente Barcelona, no período da Guerra Civil Espanhola é muito marcante na vida dos personagens. Algumas passagens do livro foram difíceis de engolir - algumas tramas que me lembraram novelas mexicanas, mas em suma a história foi bem marcante para mim. Para mim é difícil enquadrar esse livro em algum estilo, pois acho que ele consegue se encaixar em um mistério policial, mas também com um pé no horror e outro nas relações/intrigas familiares. A fumaça do cigarro que cobre a cara de um homem na penumbra das noites de outono é um mau presságio para Daniel - para o leitor, a caracterização de um possível "vilão". Esse homem, com feições misteriosas e com objetivos ainda mais obscuros, procura os livros de Carax com o único objetivo de queimá-los. Essa é a força motriz que o leva para a livraria dos Sempere, e essa ambição também é algo que move a trama dos personagens de forma frenética. Quero saber um pouco de vocês, já leram "A Sombra do Vento"? Se você já leu, acha que eu deveria continuar lendo os próximos volumes? Boa leitura. 



Um estudo em vermelho, de Arthur Conan Doyle


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          'Um estudo em vermelho' é narrado, como todos os romances do Sherlock Holmes se não estou enganado, através das impressões do ex-militar e médico John Watson. Esse foi o livro que apresentou o detetive da Baker Street para o mundo literário, até mesmo quando ele e Watson ainda não vivam na 211B Baker Street. Watson chega à Londres após uma traumatizante experiência na guerra, buscando estabilidade financeira, social e habitacional. Londres já era uma cidade cara no século dezenove, o que motiva o ex-militar a procurar alguém que esteja disposto à compartilhar um apartamento, ou até mesmo um quarto na capital inglesa. O primeiro contato entre os dois que serão os maiores apoiadores das investigações da Scotland Yard se dá em uma sala onde Holmes está praticando um experimento biológico, mostrando já o caráter extremamente racional e peculiar do personagem. Ler esse livro depois de assistir à incrível série da BBC Sherlock tornou difícil não imaginar Benedict Cumberbatch interpretando o detetive inglês. 


          Os primeiros acontecimentos da narrativa expressam a inquietude de Watson em relação ao seu novo colega de apartamento; uma mescla de fascínio e estranheza seria a melhor caracterização para a atitude do médico em relação a Holmes. Durante os primeiros dias na Baker Street, Watson não faz ideia da ocupação da pessoa com quem está compartilhando uma casa, portanto começa a escrever sobre seus hábitos e passatempos, tentando formar quadros e tabelas que relacionem os conhecimentos de Holmes, analisados através do olhar minucioso de John Watson. Alto conhecimento em música, linguagem, química, literatura e outras áreas do conhecimentos que não convergem em apenas uma profissão definida, deixando o nosso narrador observador ainda mais inquisidor. 

          Quando a verdadeira profissão de Holmes é revelada, uma profissão que aparentemente ainda não era de praxe na comunidade londrina, Watson começa a entender os profundos conhecimentos do detetive em focos de estudo tão diversificados. 'A ciência da dedução', talvez a tradução seja um pouco diferente desse sentido literal que eu acabei de dar, criada por Sherlock Holmes, demonstra a importância de um olhar atento a todos os acontecimentos e variáveis que resultam em determinado produto. Com essa nova ciência em desenvolvimento, Holmes consegue explicar como crimes foram cometidos apenas analisando o que está disposto ao seu redor na cena do crime, abismando todos os detetives da Scotland Yard. 

          Nesse romance em específico, acompanhamos a primeira investigação de Holmes narrada e acompanhada de perto pelo Dr. Watson, a qual é denominada 'Um estudo em vermelho'. Fiquei pensando no duplo sentido que esse nome possivelmente apresenta, pois os personagens, ao longo da narrativa, comentam sobre o possível caráter político do assassinato que estavam investigando. Alguns detetives da Scotland Yard chegam até a afirmar que quase todos os assassinatos que estavam acontecendo na Europa durante aquela época tinham relação direta com movimentos políticos. Achei um análise válida, mas não sei se não é apenas uma divagação da minha mente. Talvez o nome apenas relacione o sangue que havia sido usado para escrever uma palavra em Alemão na cena do crime, o que acabaria colocando os detetives da polícia londrina em um rumo errado da investigação, não fosse pela perspicácia de Holmes. 


          Recomendo a leitura do livro no original para quem quer praticar um pouco do seu Inglês. O único empecilho durante a leitura talvez seja o uso de algumas gírias inglesas e uma gramática um pouco mais ultrapassada do Inglês britânico. Tirando isso, não é uma leitura muito difícil, não. Vocês já leram algum livro do Holmes? O que acharam? 



Assisti à primeira temporada de Bates Motel e o que eu achei da série.

          Antes de começar a assistir à série, eu já tinha visto o filme "Psycho" do Hitchcock, o que fez com que eu achasse apenas mais interessante acompanhar o passado dos personagens que eu tinha tido o primeiro contato com o thriller incrível do diretor já mencionado. A cidadezinha do interior de Oregon que funciona como cenário para Bates Motel tem todo um clima de cidade do interior característica de filmes/séries/livros de horror. Montanhas com topos cobertos de neve, um porto em funcionamento, florestas de pinho, escola com professores estranhos e, obviamente, um hotel de beira de estrada administrado por uma família de psicopatas (bem, nem todos são psicopatas). 


          A série tenta mostrar o que teria acontecido na vida do Norman Bates, que é o dono do Bates Motel no filme do Hitchcock. Quem já viu o longa sabe que Norma (mãe do Norman) apenas aparece no final do filme. Após a morte do marido, Norma tenta iniciar uma nova vida com o filho em uma cidade em Oregon; compra um hotel na estrada que estava sendo leiloado devido a dívidas do antigo dono, e muda o nome do hotel para Bates Motel. A série começa com os dois dentro de um carro, andando em direção a nova vida que querem construir com aquele hotel. Quando a característica residência da família Bates é apresentada na série, eu realmente fiquei impressionado com essa diferente representação de um local tão característico para o mundo do thriller/horror. 

Bates Motel (2013)
Psycho (1960)



          A série apresenta o lado adolescente de Norman em inúmeras ocasiões, seja na escola com seus dilemas em encontrar amigos, ou com indecisões amorosas. O modo inocente de agir do garoto somado com a proteção que Norma deposita nele geram cenas que produzem muita raiva para quem está assistindo - até você entender o motivo de alguns atos. Logo no primeiro episódio já conseguimos ver que existe algo errado no comportamento dos dois. Eu fiquei me perguntando se seria o caso de ambos serem psicopatas; ou apenas um deles. Alguns personagens secundários são muito interessantes, como por exemplo a Emma, uma menina que sofre de uma doença respiratória e acaba se apaixonando pela personalidade insossa do Norman. Uma das cenas mais engraçadas da série talvez seja protagonizada por ela, quando recebe um cupcake "mágico" e fica filosofando sobre assuntos pertinentes (ou nem tão pertinentes assim). O próprio pai de Emma é um personagem que eu queria ter visto mais durante os episódios; um britânico que tem a taxidermia como seu principal passatempo. Dylan é o irmão mais velho de Norman, trabalha em uma plantação de maconha na cidadezinha e no início da temporada age como um outsider da família. 


          Gostei bastante do final da temporada, não foi muito surpreendente, mas gostei bastante. Vamos ver como Bates Motel vai continuar depois dessa primeira temporada acima da média. 





Livros, filmes, séries e outras coisas de setembro



LIVROS

          Setembro foi um mês no qual eu consegui ler muitos autores diferentes, descobrir novas narrativas e revisitar a escrita de um dos meus autores preferidos. Os livros que li recentemente realmente mexeram comigo, e fico pensando em quando vou relê-los quando for mais velho. Fiquei o mês inteiro com vontade de comprar o quarto livro do Karl Ove, mas o preço realmente não está ajudando. Vou esperar uma boa promoção para adquirir os livros dele que ainda não li. Esse mês, além de consumir bastante literatura, assisti a muitas entrevistas com autores - o que na minha opinião é uma das melhores coisas que se tem para fazer no Youtube. 

A ILHA DA INFÂNCIA (MY STRUGGLE BOOK 3) - Karl Ove Knausgård

Comecei o mês lendo um livro que na verdade eu tinha começado no primeiro mês do meu intercâmbio. Karl Ove é um dos meus autores preferidos, e poder voltar para a sua narrativa de angustia, cigarros e relações foi incrível. O terceiro livro, em minha opinião, foi o mais fraco dos três primeiros - acho que dificilmente alguma obra dele vai superar o baque que eu tive na leitura de "A morte do pai". Nesse terceiro livro, o autor descreve sua infância em uma ilha na Noruega, seus primeiros desejos sexuais, primeiros contatos com a música, sua relação repugnante com o pais, sua personalidade enquanto criança, etc. Você pode ler minha opinião mais detalhada lendo a resenha que escrevi aqui no blog (clicando aqui). 

MORANGOS MOFADOS - Caio Fernando Abreu:

Adorei (re)ler os conto do Caio Fernando Abreu. Eu nunca tinha lido todos os contos de Morangos Mofados, mas muitos deles foram analisado em aulas de literatura que tive ao longo do semestre passado. Caio com certeza é um dos meus escritores brasileiros preferidos de todos os tempos, e acho que a leitura de suas obras se faz necessária nos tempos sombrios em que estamos vivendo. Eu finalizei a leitura desse dia exatamente no dia que seria o aniversário do autor. O engraçado é que não foi proposital. Os contos abordam temas que mexem com os preconceitos da sociedade, mostrando formas diferentes de amor, de expressão e de arte. O cenário da ditadura militar percorre muitas das narrativas. Você pode ler minha opinião mais detalhada clicando aqui.

 MEMÓRIAS DO SUBSOLO - Fiódor Dostoiévski:

Com certeza o livro mais filosófico do mês. Ler Dostoiévski é sempre um (bom) desafio para mim, o que na verdade todo livro com uma bagagem como esse deve ser. Acho que ler um autor como Dostoiévski chega a doer, machucar, mas isso que é lindo da sua narrativa. A introspecção psicológica nesse livro é incrível. Memórias do subsolo foi o meu segundo livro do autor que eu li. Você pode ler minha opinião mais detalhada clicando aqui. 




CARTAS NA RUA - Charles Bukowski:

Com certeza a leitura mais engraçada - e diferente - do mês. Cartas na rua é um tipo de autobiografia ficcional; o autor utiliza um alter ego para escrever sobre os anos em que trabalho para o governo dos Estados Unidos, além de comentar sobre todas as suas ressacas, arrependimentos, mulheres e outras inconstâncias da vida do beberrão Bukowski. Essa obra é o primeiro livro escrito pelo Bukowski, e acredito que também um grande destilado de sua forma de escrever e ver o mundo. Você pode ler minha opinião mais detalhada clicando aqui.




MÊS DE CÃES DANADOS - Moacyr Scliar:

O segundo autor brasileiro lido em setembro foi o porto-alegrense Moacyr Scliar, com sua obra sobre os anos antes de ditadura militar, e o desenvolver de uma estória que começa nos pampas gaúchos e acaba nas ruas de Porto Alegre. Adorei a escrita do autor, com certeza foi uma das grandes vozes da literatura brasileiro contemporânea. O Mário, personagem principal da obra, está na minha lista de personagens mais escrotos ever - e acho que vai continuar lá por um bom tempo. Você pode ler minha opinião mais detalhada clicando aqui. 






FILMES/SÉRIES: 

         Tentei começar muitos filmes esse mês, mas acabei terminando e realmente gostando de apenas um. Tentei assistir a um filme clássico alemão que vários amigos meus estavam comentando, mas acabou não funcionando para mim. O cinema é, como qualquer outra arte, para mim, algo que vem e vai na minha vida. Às vezes fico meses sem assistir a um bom filme, mas de repente consumo algo que faz minha mente "abrir" novamente para a sétima arte. Eu assisti pela quinta vez, se não me engano, Donnie Darko, mas acho que não cabe comentar mais uma vez sobre esse filme hahaha. 

LÉO E BIA - dirigido por Oswaldo Montenegro:

Um filme lindo, baseado no teatro, com personagens reais e cativantes. Ambientado no cenário da ditadura militar, Léo e Bia é um filme muito emocionante sobre as relações de um grupo de teatro da cidade de Brasília. Um filme brasileiro com toda a brasilidade que pode ter, achei bonito demais. Você pode ler minha opinião mais detalhada clicando aqui. 






BATES MOTEL: 

Comecei Bates Motel, muito por que queria começar alguma série mas ficava sempre na indecisão e no tédio. Estou realmente no início da primeira temporada, so no spoilers, please. Pelo fato de eu adorar o filme Psycho do Hitchcock, acho que vou gostar da série - mas posso estar muito enganado. Enfim, ainda não tenho muito o que falar. A fotografia é legal. 




OUTRAS COISAS: 



também fiz uma tatuagem

e tirei uma foto massa enquanto estava indo para uma escola na qual estou fazendo um projeto da facul






Mês de cães danados, de Moacyr Scliar


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          Esse é um livro que mostra definitivamente que Moacyr Scliar veio do estado do Rio Grande do Sul, afinal seu conteúdo regionalista e os dois principais cenários que ambientam esta estória demonstram de forma nítida a situação regional do personagem e da trama. O autor é porto-alegrense, e a cidade urbana de Porto Alegre torna-se viva em sua narrativa, tanto com suas belezas e importância histórica, quanto com seus ratos, imundices e pessoas que vivem à margem da sociedade. O protagonista da trama, aparentemente um mendigo morando perto do Palácio Piratini em Porto Alegre, sede do poder executivo do Estado do Rio Grande do Sul, relata sua história de vida para um paulista, que não é nominado ao desenvolver do enredo. Todos os dias, ao decorrer de uma semana, o paulista deposita algumas moedas no fundo de uma lata de doces em troca de mais uma porção da história daquele gaúcho dos pampas. A narrativa é muito diferente, os diálogos do passado com os do presente se misturam em uma escrita muito sagaz de Moacyr Scliar. O humor é presente em todo o relato, mesmo que muitas passagens sejam marcadas pelo sádico e pelo horror. O plano de fundo da linha temporal do passado são os anos antes da ditadura, quando a situação política do Brasil era muito delicada e instável. Jânio Quadros havia renunciado, depois de apenas sete meses de governo; Leonel Brizola movimentava o povo no Rio Grande do Sul; os militares acreditavam que Jango tinha relações com o partido comunista, etc. Mesmo com um plano de fundo muito agitado, eu diria, Mário, o protagonista da estória, conta que enquanto jovem e estudante de Direito, pouco se interessava sobre o que estava acontecendo no cenário político de seu país. Começa a relatar sua história desde o início, quando vivia nos pampas gaúchos, tinha uma queda por sua professora de Francês, praticava esgrima e mantinha relações muito estranhas com seu pai e irmão mais velho. Ao pensar na história de vida dos personagens da fazenda, consigo ver muitos estereótipos aqui do sul (moro no Rio Grande do Sul), mas que na verdade não estão completamente errados. Muitos "gaudérios" daqui são exatamente como os descritos no livro, incluindo Mário. Já vou logo dizendo que o personagem principal me fez passar muita raiva, com suas atitudes extremamente burras, impensadas, machistas e individualistas. Quando Mário decide que quer morar na capital e estudar Direito, pede para o pai custear todos os seus gastos, mesmo sabendo que a situação financeira na fazenda não era das melhores. O agora estudante de Direito vive uma vida de luxos, tem um Cadillac, mulheres, bebidas, churrascos, apartamento e um revólver na cintura. A tensão da trama aumenta muito no final do livro, e posso dizer que me surpreendi bastante com as últimas páginas; sem comentar no incrível desfecho do livro. Vocês já leram algum livro do Moacyr Scliar? O que acharam? 

Algumas músicas da semana.

          Criei uma nova playlist denominada "massinha" no início da semana, e fiquei todos os dias alimentado-a com algumas novas músicas que eu achava massinha. Bem autoexplicativo na verdade. Espero que vocês tenham um domingo melhor com essas músicas.





The less I know the better - Tame Impala



Hal full glass of wine - Tame Impala


Elephant - Tame Impala 


Sleep apnea - Beach fossils 


Se movimente - Guantánamo groove 


Dinossauros - Dingo Bells 


Não - Tim Bernardes 


Comida amarga - Carne Doce



Cartas na rua, de Charles Bukowski.



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          Eu poderia facilmente comparar a leitura de "Cartas na rua", e acredito que todos os livros do Bukowski devido a relatos de amigos, com aquelas conversas de bar ou final de show trash de rock com os embriagados da vez. Charles Bukowski usa um alter ego, Henry Chinaski, para escrever sobre as inconstâncias de trabalhar nos correios dos EUA durante a década de cinquenta. A rotina de alguém que todos os dias bebe até às três da madrugada e começa a trabalhar às cinco da manhã, ou até mesmo o que pode acontecer se você fumar um charuto durante seu trabalho manual com cartas, etc. A narrativa de todo livro é muito pessoal, repleta de pensamento íntimos do personagem, inclusive desejos extremamente sexuais para com qualquer mulher. Henry Chinaski leva uma vida que cobra seus luxos. Grande parte da narrativa é dedicada aos acontecimentos da vida de um carteiro trabalhando para o governo federal. Trabalhando para o governo federal durante a guerra fria, vale ressaltar. Há uma passagem em que um funcionário do governo vai a sede dos correios para fazer uma propaganda anti-comunista, colocando os russos como os grandes vilões. A escrita do Bukowski é muito direta, seca, crua, simples e sem firulas. Muitos autores hoje em dia copiam seu estilo de escrita, usando os mesmos moldes de cenas ultrajantes e, digamos, provocativas. O livro é hilário, talvez um dos pontos mais fortes na minha percepção - cheguei a gargalhar enquanto lia o livro em pé esperando o café passar para ir para a faculdade, ou enquanto cozinhava alguma coisa. Bukowski é um grande beberrão letrado. Quando decide largar o trabalho nos correios, Chinaski começa a frequentar hipódromos e a apostar em corridas de cavalo. Mora junto com sua namorada, proveniente de família rica, em uma casa cercada por grama e mosquitos no interior do estado. Perde a esposa, perde o cachorro, perde os passarinhos, volta para a cidade, volta a trabalhar nos correios, mas o que não muda são as bebedeiras e situações vergonhosas no trabalho. Achei incrivelmente engraçado quando um dos seus colegas de trabalho decide que quer virar escritor, e pede para o próprio Chinaski ler uma primeira edição do que seria o original enviado para as editoras. Chinaski odeia alguns diálogos, e simplesmente não entende a ideia romântica de um encontro apaixonante que acontece no meio da história. Acho que esse comportamento do personagem com relação ao amor é um grande paradoxo para o modo que Chinaski, e acredito que o próprio Bukowski, vê a ideia de amor idealizado. Acho que Chinaski só tinha amor pelas cervejas e por cigarro mesmo - mulheres também, mas da forma mais carnal e sexual possível. Não vou enganar ninguém, Bukowski é hilário, mas em alguns episódios tem uma escrita bem machista e... escrota mesmo. 


Quando eu fui para NYC (não como um turista) - fotos.


Sala de aula da faculdade da minha host do Couchsurfing.


Um café grego (no meu trabalho, meu melhor amigo era da Grécia. Por isso da escolha).


:)



           Da esquerda pra direita: Damianos (meu amigo da Grécia), eu, Julie (uma menina da França que estava no mesmo Couchsurfing que eu) e Adrien (namorado da Julie).




Minha host (Bria) estava desenhando e eu decidi tirar uma foto. 


Pôr do sol no apê dela.


Williamsburg


Gatos


Brechós










Memórias do subsolo, de Fiódor Dostoiévski



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    Tive duas oportunidades de entrar em contato com a fascinante escrita de Dostoiévski. A primeira, no terceiro ano do ensino médio, quando li "Crime e Castigo" e fiquei fascinado e consequentemente intrigado; a segunda, no segundo semestre da faculdade, quando acabei exatamente no dia de hoje de ler "Memórias do subsolo". Nos dois casos eu tomei um papel diferente de leitor frente a livros escritos por uma das mais brilhantes mentes do século XIX. Muito dessa diferente forma de julgar a leitura é a expectativa do grandioso que uma obra clássica pode gerar - pelo menos isso sempre acontece comigo. Enquanto estava lendo "Memórias do subsolo" fiquei procurando, do mesmo jeito que fiz quando li "Crime e castigo", a grandiosidade de uma história escrita por Dostoiévski. Posso dizer que em ambas as obras eu a encontrei. É notável, na narrativa e principalmente na introspecção psicológica, a diferença entre um escritor, ou escritora, que viveu sentado em uma cadeira, bebericando um café e fumando uns cigarros, quando comparado com alguém que realmente viveu as mazelas mais podres, inesperadas e absurdas da vida. Dostoiévski foi preso, condenado à morte e mandado para um campo de trabalho forçado por nove anos na Sibéria. Quando Dostoiévski escreve sobre o sentimento de quase morte, ele realmente sabe do que está falando. As introspecções psicológicas, uma das marcas mais fortes de seus romances, realmente nos faz submergir em um drama muito lúgubre do personagem. Durante os anos de trabalho forçado na Sibéria, Dostoiévski tem contato com a parte mais sórdida do ser humano, e é nessa etapa de sua vida que o autor começa seu amadurecimento espiritual. "Memórias do subsolo" foi escrito durante essa fase da vida do autor russo, uma das obras de transição, como são chamadas pelos críticos aquelas que foram escritas entre a juventude e a maturidade ("Crime e castigo", "Os irmãos Karamazov" e "O idiota" são exemplos de obras da Maturidade). Acho muito difícil escrever sobre a trama do livro em si, posso tentar escrever um pouco sobre o narrador, o que na verdade já diz muito sobre o núcleo do livro. A narrativa é em primeira pessoa, conta com uma forte introspecção psicológica, principalmente na primeira parte do livro. Nos primeiros capítulos, o protagonista, que não é nomeado ao longo do livro, demonstra ser um homem confuso e enveredado nas mazelas mais escuras da vida. O início do livro é marcado por um longo monólogo sobre como a vingança se dá na mente do ser humano, sobre a evolução da ciência, sobre o racionalismo, sobre a dor e os prazeres do personagem. A segunda parte do livro toma conta de acontecimentos na vida do inominado, principalmente sobre seus planos para tentar mostrar sua superioridade quando comparado com as outras pessoas. Em muitas passagens do livro fiquei com raiva do narrador, principalmente quando delirava sobre sua infundada vontade de arruinar a vida de certos colegas da infância. Ler Dostoiévski é uma experiência literária que precisa ser vivida antes da morte. 




    

Cinema: Léo e Bia (de Oswaldo Montenegro)


    Estruturado nas bases criativas de uma peça teatral, "Léo e Bia" é definitivamente uma experiência cinematográfica ímpar no cenário do cinema brasileiro. Eu comparo assistir a este filme a ler poesia; muitas vezes é necessário ter um olhar mais questionador e aberto às metáforas que estão presentes em praticamente todas as cenas. O cenário é o mesmo ao longo do filme, o que realmente muda é a posição de determinado móvel ou estrutura do set. O fato do filme ser praticamente uma peça de teatro gravada na íntegra possibilita ao espectador observer as técnicas dramaturgas dos atores ao extremo. Alguns elementos, como a mudança temporal ou geográfica, ao longo da história são expressados simplesmente pela mudança da luz, ou até mesmo pela mudança física dos objetos pelos próprios atores em cena. A obra conta com pouquíssimos cortes e ótimos monólogos de praticamente todos os atores. Sem contar a trilha sonora que é MPB de primeira. 

    "Léo e Bia" retrata um grupo de amigos, autodenominados de burgueses e privilegiados, enquanto buscam o sonho de construir a vida no teatro. Moram em Brasília no final da década de setenta, quando o movimento hippie nos EUA estava em seu auge, e aqui na América Latina a democracia sofria pedradas com as ditaduras militares. "Cabelo" é o único integrante do grupo teatral que não mora no plano piloto - é negro, homossexual, pobre, admirador da cultura francesa e definitivamente o mais culto do grupo. Os dramas passados por Cabelo demonstram as lutas que a comunidade LGBT travava durante a ditadura militar (ainda hoje na verdade, uma luta que se mostra constante), um aspecto que já foi retratado por muitos artistas, em especial Caio Fernando Abreu (coincidentemente eu escrevi uma resenha de Morangos Mofados dois dias atrás, no mesmo dia que Caio Fernando Abreu faria setenta anos de idade). 

    A homossexualidade não é o único tópico de extrema relevância que é tratado ao longo do filme. Por se passar durante o auge do período ditatorial, temas como o fascismo, a repressão e a falta de liberdade artística são duramente criticados pela obra. Uma das falas mais marcantes para mim foi proferida pelo personagem de Pedro Nercessian, "Encrenca", na qual ele diz algo como: "o povo é burro, o povo elegeu Hitler". Essa primeira frase gera uma grande discussão entre os integrantes do grupo sobre as qualidades e os defeito do povo, algo que acho ser muito pertinente no atual cenário em que estamos vivendo (cada vez mais sou adepto de que a história e as civilizações seguem um ciclo). Encrenca é o cara do grupo que só quer fumar um baseado e ficar bêbado; não se importa muito com as inconstâncias da vida fora do grupo de teatro, quer é ser feliz fazendo o que ama.

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    Léo e Bia são um casal, sendo Léo o diretor das peças e Bia uma das melhores atrizes. Bia sofre muita repressão pelo lado de sua mãe, que sempre a perscruta com um olhar crítico. A mãe da menina sempre indaga a filha se ela está transando com Léo, se está usando anticoncepcional, sobre suas notas na escola, etc. O caráter austero da mãe é tão bem trabalhado que durante umas das cenas em que a peça teatral está passando pelo censor da ditadura, a mesma atriz que interpreta a mãe de Bia toma o papel de censor da peça de teatro, em uma cena repleta de metáforas e aquele exagero magnífico que o teatro consegue nos passar. 

    Se eu tivesse que dar mais um argumento para convencer você a assistir ao filme, seria que os personagens são humanos ao extremo, carismáticos, brasileiros como nós, gente como a gente. O elenco realmente conseguiu transmitir toda uma gama de dramas muito particulares com uma maestria sublime. Você pode encontrar o filme no próprio canal do diretor no Youtube, clicando aqui. 




     

Morangos mofados, de Caio Fernando Abreu.

Título: Morangos mofados
Autor: Caio Fernando Abreu
Ano de publicação: 1982


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     Caio Fernando Abreu consegue se renovar de forma tão orgânica, que quando leio seus contos no tempo atual sinto que poderiam muito bem ter sido escritos por mim. Quem não se identifica com os temas abordados pelo autor é quem não viveu intensamente a vida; Caio escreve sobre amor, drogas, decepções, depressão, trabalho, deveres, sentido da vida, universo, música, poesia, literatura, etc. Seus contos carregam toda a carga emocional que o escritor suportou durante sua vida, tanto pela repressão que sofreu na ditadura militar, quanto pelas experiências que teve no período que morou na Europa. 

    Em morangos mofados, um livro de contos publicado no início da década de oitenta, Caio divide seus contos em duas partes: mofo e morangos. Gostaria aqui de comentar alguns dos meus contos preferidos, porque acho demasiadamente difícil fazer uma resenha sobre um livro de contos com obras tão ímpares quanto esse livro.

    "Luz e sombra" foi o primeiro que me chamou a atenção, fique relendo até tentar encontrar alguma sentido; só depois que conversei com um amigo sobre esse conto que me "toquei" de algumas coisas. Em "luz e sombra", o narrador fita incessantemente a paisagem da janela do seu "quarto" muito pequeno, que a meu ver na verdade é uma cela de prisão; não apenas pelo tamanho, mas sim pela vontade não atingida do personagem de sair daquele lugar para poder ir à praia. Os morcegos no conto na verdade são os militares do período da ditadura, e o barulho que fazem pode muito bem ser relacionado tanto com tortura física quanto emocional. 

    "Caixinha de música" demonstra as diferentes faces que o amor pode tomar; o conto é formado por metáforas que vão se encaixando com a realidade de um casal que está deitado na cama esperando o sol nascer. Bebem com a mão esquerda e fumam com a direita, conversam sobre sonhos, tudo isso com o som de uma caixinha de música. O final desse conto é bem surpreendente, cru, e infelizmente realidade. 

    "Aqueles dois" foi um dos contos que mais me tocou; falando sobre simplesmente dois homens, Saul e Raul, um com um ano a menos que trinta e o outro com um a mais. Um que é frustrado por ter cursado Arquitetura, fica fazendo rabiscos de faces com olhos bem grandes e tem um quadro do Van Gogh em seu quarto. O outro canta, toca violão e gosta de cinema. Ambos trabalham no mesmo escritório, tentando reconstruir uma vida destruída por desilusões. Por interesses em comum, se aproximam, começam a gostar de passar o tempo um com o outro; o que acho interessante é que ambos não rotulam o que existe entre eles, é apenas um sentimento bom de compartilhar conversas, cigarros, músicas e filmes um com o outro. Os olhares dos colegas de trabalho sempre repousam sobre os dois quando estão tomando um café e conversando sobre o que aconteceu no final de semana. Não quero contar sobre o final do conto para não estragar a experiência de vocês, mas digo que é um bela obra para refletir sobre tantas coisas: amizade, amor, rotular relações, etc. 



    Imagem relacionada

"Sargento Garcia" (conto do livro "Morangos mofados") - Caio Fernando Abreu

Título do conto: Sargento Garcia
Autor: Caio Fernando Abreu
Ano de publicação: 1982


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    Então, me pego em uma manhã de terça-feira lendo um dos melhores contos do Caio Fernando Abreu que já li até agora, não me surpreende o prêmio Status de Literatura que ganhou em 1980. "Sargento Garcia" se encontra na parte dos "morangos" no livro de contos "Morangos Mofados". A vida do Caio influencia toda a sua obra; suas filosofias, pensamentos, orientações e interesses formam um fio condutor que percorre todas as suas narrativas. Refugiava-se do DOPS no final da década de sessenta, também se exilou por um ano na Europa, retornando para Porto Alegre em 1974. Caio nasceu em uma pequena cidade perto da fronteira chamada Santiago, aqui no estado onde eu moro (RS); fico imaginando como um menino que nasceu em uma cidade que hoje tem cerca de cinquenta mil habitantes, deve ter se sentido sendo perseguido pela ditadura militar e ter tido que se exilar na Europa. É indiscutível que os contos do Caio são permeados por seus gostos particulares; não é  difícil encontrarmos personagens que bebem mais café do que deveriam, fumam muito, escutam Beatles e falam de astrologia. 
    Na maioria dos seus contos, a sexualidade é muito discutida, ainda mais o mundo queer e LGBT ; Caio Fernando Abreu era gay, crítico da ditadura e um formador de mentes de uma geração. "Sargento Garcia" consegue pincelar muito bem as angústias tanto do particular (personagem principal), quanto do mais amplo (a geração de jovens que viveu a ditadura militar). O personagem principal do conto, Hermes, devaneia olhando para fora da janela do local em que se apresenta para o serviço militar obrigatório. Diferente de hoje, o quadro que está na parede descasada do cômodo é o de Castelo Branco, o que nos dá a ideia de que o conto se passa provavelmente nos anos iniciais da ditadura (Castelo Branco ficou no poder de 1964 a 1967). O sargento que chama Hermes, no caso o próprio Sargento Garcia do título do conto, é austero e ríspido com sua fala, mas acaba dispensando Hermes, que afirma ter arrimo familiar e estar estudando filosofia. O conto é dividido em três partes, sendo que a primeira relata apenas isso que foi resumido nesse parágrafo. 

    A segunda parte do conto descreve a transição dos dois personagens para um plano diferente da narrativa. Enquanto Hermes desce um morro para ir até uma estação, o próprio sargento Garcia vem vindo de carro, um cigarro no canto da boca. O militar insiste que o garoto entre no carro, até que Hermes aceita a carona. Nas falas do sargento enquanto está dirigindo, conseguimos entender que ele possuía um apreço um pouco maior por Hermes, mostra-se interessado na faculdade de filosofia, e pergunta sobre o modo que o garoto vê o mundo. No carro, fica claro mais um ponto muito forte do período ditatorial, em uma das falas do Sargento: 

"... A vida me ensinou a ser um cara aberto. Admito tudo. Só não aguento comunista."

    O sargento pede para o garoto se ele não quer ir para algum lugar mais reservado, e já coloca a mão nas pernas do estudante de filosofia e recém-dispensado do exército, Hermes. Ele diz que nunca tinha feito sexo, que seria sua primeira vez, mas acaba não ficando claro se estava falando de transar pela primeira vez com um outro homem, ou se realmente foi sua primeira vez. Sargento Garcia diz que conhece um lugar, que Hermes pode seguir ele um pouco atrás para ninguém desconfiar que estão juntos.

    Na terceira parte é quando vemos o ato se concretizar, Hermes e o Sargento chegam a um quarto alugado por uma mulher chamada Isadora. Na fala de Isadora entendemos que na verdade ela é ele:

"- Isadora, queridinho. Nunca ouviu falar? Isadora Duncan, a bailarina. Uma mulher finíssima, má-ravilhosa, a minha ídola, eu adoro tanto que adotei o nome. Já pensou se eu usasse o Valdemir que minha mãe me deu?"

    Quando vão para o quarto, o sargento diz para o garoto se despir e deitar na cama; em seus olhos, Hermes conseguia ver a fúria do desejo. A cena que é relatada é muito mais de estupro do que de um sexo consentido, em passagens como: "... com os joelhos, lento, firme, ele abria caminho entre as minhas coxas, procurando passagem", ou em "... quis gritar, mas as duas mãos se fecharam sobre a minha boca.". É interessante o leitor prestar atenção à música que é cantarolada por Isadora no cômodo do lado, é um bom plano de fundo para os pensamentos de Hermes. Se tudo isso que já apresentei não é suficiente para descrever o estado de espírito do menino, o campo semântico usado para descrever o ato ilustra minha opinião. Um grande conto de um grande escritor, que como já disse em um post do Instagram (@vazios), deveria estar sendo lido no tempo de intolerância que estamos vivendo.




Antes linear fosse a vida.


Eu disse para os meus pensamentos um belo foda-se. 
Saí com meus amigos para ver as árvores passando em borrões.
A linha amarela na escuridão; eventuais quadrados verdes e azuis.
Antes fosse profunda a conversa.

Queria entorpecer os pensamentos, não sei por que me incomodam tanto. 
Talvez só queria vivenciar uma espécie de simulação no torpor.
Para me despir do vazio.
Não pensei que seria no meio da tragada que o ciclo recomeçaria. 

Nos perdemos na política, nos arcos de prata, nas linhas de tinta preta. 
Nos perdemos na linhas vermelhas, essas orgânicas.
Nos perdemos pelo acaso.
Eu me perdi por desejo: carnal, simples, humano; transgressivo?

Duas voltas na fechadura, calmamente para não romper o invólucro de silêncio.
O resto é literatura na mente do autor. 

by Stifler Mendes