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"Uma temporada no escuro", de Karl Ove Knausgård

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          O quarto livro da série "Minha luta", do escritor norueguês Karl Ove Knausgård, revisita memórias de um tempo transformador na vida do autor. Os acontecimentos narrados neste livro tomam forma em um vilarejo no norte da Noruega, para o qual Karl Ove decidi rumar quando completa dezoito anos de idade; a desestruturação da família, a transição da adolescência para a vida adulta e o anseio de se tornar um escritor foram os três pilares que basearam sua decisão de sair de casa e tentar a sorte em um vilarejo totalmente desconhecido. Enquanto seu pai tenta construir uma nova família com sua nova companheira, a mãe se adapta a morar sozinha na casa que costumava ser da família. O irmão de Karl Ove segue na vida universitária em outra cidade; "Uma temporada no escuro" retrata uma família que foi separada da forma mais natural possível: pela ambição de cada um de se adaptar com um novo estilo de vida, e, de certa forma, pelo amadurecimento e a chegada da vida adulta de ambos os filhos. 

          A arte da escrita é descrita de forma nada romantizada durante as mais de quatrocentas páginas da versão brasileira do livro (Companhia das letras, traduzido por Guilherme da Silva Braga); Karl ove trabalha durante o dia como professor em uma escola primária do vilarejo, e mesmo não gostando de ser reconhecido como alguém que ensina crianças, aprende a tirar proveito daquela situação. Ele encara cada fase de sua vida como algo finito, ou seja, para Knausgård todos os momentos são encarados como mecanismos transformadores da pessoa que ele irá se tornar no futuro. Na sua visão, o trabalho de professor no norte da Noruega é a forma que ele encontra de se sustentar, enquanto utiliza seu tempo para escrever e encontrar seu estilo literário. 

          As frustrações e descobertas da vida sexual do jovem de dezoito anos podem até ser íntimas demais em certos casos. Em "Uma temporada no escuro", o leitor irá encontrar um Karl Ove que fuma maconha, que bebe, que tem ânsia pelo novo, que procura incessantemente perder a virgindade, que tenta ao máximo não decepcionar a si mesmo e que, acima de tudo, busca um sentido para sua vida. Acho que cada ser humano vivo, que ainda tem um coração batendo e um cérebro funcional, consegue se identificar em algum momento com os anseios do autor norueguês. 

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"A Sombra do Vento", de Carlos Ruiz Zafón

     



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     O crescimento do autoritarismo, o início de uma guerra e as mudanças de uma sociedade perante maus presságio são sempre fatores difíceis de serem percebidos pela grande parcela da população; a realidade brasileira demonstra isso muito bem. As pessoas trabalham, têm relações, saem nos finais de semana, escrevem, comem, bebem, e em suma, seguem com suas vidas. "A Sombra do Vento" é um livro que acima de muitas coisas consegue demonstrar isso muito bem. Carlos Ruiz Zafón arquiteta sua trama em duas principais linhas do tempo - o pós guerra em Barcelona, e o período antes dos terríveis acontecimentos - ambos marcados pela presença dos livros, de leitores e de relações pessoais. O romance consegue demonstrar o amor em diversas esferas; o amor pelas palavras, pelas pessoas e pela vida. Mas também relata o ódio - o sentimento que consegue matar, extinguir às cinzas e destruir instituições já muito bem estabelecidas. Daniel Sempre trabalha em uma pequena livraria nas ruas de Barcelona. Como é muito provável de se deduzir, compartilha do amor pelo livros devido à influência do seu pai. Em uma madrugada em que os pensamentos do filho do livreiro beiravam a sombria morte de sua mãe, o pai do garoto decide levá-lo até o Cemitério dos Livros Esquecidos. Lá o pai diz para o filho escolher um livro, algum que tivesse de algum modo lhe chamado atenção, que poderia preencher os vazios da vida do garoto e acalentar seus sentimentos durante dias difíceis. Nos dias seguintes, Daniel se apaixona por um livro chamado "A sombra do vento", e fica estranhamente interessado na misteriosa história de vida e do desaparecimento de Júlian Carax, o escritor do romance. Ao longo dos anos o autor torna-se um amigo próximo, mesmo tendo Daniel nunca o encontrado, mas as dúvidas que pairam sobre sua cabeça o fazem seguir cada vez mais as pistas que o desaparecido escritor deixou para trás. Por muito tempo baseia seu projeto de vida em saber mais da história do autor. Quer saber por que Julian foi morar em Paris, o que fazia lá, quem era o amor da sua vida, quais foram suas decepções e conquistas. A segunda linha temporal da narrativa toma conta de relatar a vida de Julian. Essa parte da história é contada através de relatos, confissões e cartas de amigos, amores e inimigos de Julian. Zafón consegue criar personagens muito límpidos no quesito personalidade; quase todos são reais e realmente carismáticos. Fermín, perseguido por policiais e forçado a morar nas ruas sombrias da cidade, torna-se grande amigo de Daniel e seu pai. Quando os dois descobrem o talento e a paixão daquele homem enigmático para com os livros, decidem empregá-lo na livraria familiar. Em minha opinião, Fermín é o personagem mais carismático e engraçado da obra inteira, muito mais que Daniel ou qualquer outro personagem "principal" da trama. A violência que assola a Espanha, e principalmente Barcelona, no período da Guerra Civil Espanhola é muito marcante na vida dos personagens. Algumas passagens do livro foram difíceis de engolir - algumas tramas que me lembraram novelas mexicanas, mas em suma a história foi bem marcante para mim. Para mim é difícil enquadrar esse livro em algum estilo, pois acho que ele consegue se encaixar em um mistério policial, mas também com um pé no horror e outro nas relações/intrigas familiares. A fumaça do cigarro que cobre a cara de um homem na penumbra das noites de outono é um mau presságio para Daniel - para o leitor, a caracterização de um possível "vilão". Esse homem, com feições misteriosas e com objetivos ainda mais obscuros, procura os livros de Carax com o único objetivo de queimá-los. Essa é a força motriz que o leva para a livraria dos Sempere, e essa ambição também é algo que move a trama dos personagens de forma frenética. Quero saber um pouco de vocês, já leram "A Sombra do Vento"? Se você já leu, acha que eu deveria continuar lendo os próximos volumes? Boa leitura. 



Um estudo em vermelho, de Arthur Conan Doyle


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          'Um estudo em vermelho' é narrado, como todos os romances do Sherlock Holmes se não estou enganado, através das impressões do ex-militar e médico John Watson. Esse foi o livro que apresentou o detetive da Baker Street para o mundo literário, até mesmo quando ele e Watson ainda não vivam na 211B Baker Street. Watson chega à Londres após uma traumatizante experiência na guerra, buscando estabilidade financeira, social e habitacional. Londres já era uma cidade cara no século dezenove, o que motiva o ex-militar a procurar alguém que esteja disposto à compartilhar um apartamento, ou até mesmo um quarto na capital inglesa. O primeiro contato entre os dois que serão os maiores apoiadores das investigações da Scotland Yard se dá em uma sala onde Holmes está praticando um experimento biológico, mostrando já o caráter extremamente racional e peculiar do personagem. Ler esse livro depois de assistir à incrível série da BBC Sherlock tornou difícil não imaginar Benedict Cumberbatch interpretando o detetive inglês. 


          Os primeiros acontecimentos da narrativa expressam a inquietude de Watson em relação ao seu novo colega de apartamento; uma mescla de fascínio e estranheza seria a melhor caracterização para a atitude do médico em relação a Holmes. Durante os primeiros dias na Baker Street, Watson não faz ideia da ocupação da pessoa com quem está compartilhando uma casa, portanto começa a escrever sobre seus hábitos e passatempos, tentando formar quadros e tabelas que relacionem os conhecimentos de Holmes, analisados através do olhar minucioso de John Watson. Alto conhecimento em música, linguagem, química, literatura e outras áreas do conhecimentos que não convergem em apenas uma profissão definida, deixando o nosso narrador observador ainda mais inquisidor. 

          Quando a verdadeira profissão de Holmes é revelada, uma profissão que aparentemente ainda não era de praxe na comunidade londrina, Watson começa a entender os profundos conhecimentos do detetive em focos de estudo tão diversificados. 'A ciência da dedução', talvez a tradução seja um pouco diferente desse sentido literal que eu acabei de dar, criada por Sherlock Holmes, demonstra a importância de um olhar atento a todos os acontecimentos e variáveis que resultam em determinado produto. Com essa nova ciência em desenvolvimento, Holmes consegue explicar como crimes foram cometidos apenas analisando o que está disposto ao seu redor na cena do crime, abismando todos os detetives da Scotland Yard. 

          Nesse romance em específico, acompanhamos a primeira investigação de Holmes narrada e acompanhada de perto pelo Dr. Watson, a qual é denominada 'Um estudo em vermelho'. Fiquei pensando no duplo sentido que esse nome possivelmente apresenta, pois os personagens, ao longo da narrativa, comentam sobre o possível caráter político do assassinato que estavam investigando. Alguns detetives da Scotland Yard chegam até a afirmar que quase todos os assassinatos que estavam acontecendo na Europa durante aquela época tinham relação direta com movimentos políticos. Achei um análise válida, mas não sei se não é apenas uma divagação da minha mente. Talvez o nome apenas relacione o sangue que havia sido usado para escrever uma palavra em Alemão na cena do crime, o que acabaria colocando os detetives da polícia londrina em um rumo errado da investigação, não fosse pela perspicácia de Holmes. 


          Recomendo a leitura do livro no original para quem quer praticar um pouco do seu Inglês. O único empecilho durante a leitura talvez seja o uso de algumas gírias inglesas e uma gramática um pouco mais ultrapassada do Inglês britânico. Tirando isso, não é uma leitura muito difícil, não. Vocês já leram algum livro do Holmes? O que acharam? 



Mês de cães danados, de Moacyr Scliar


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          Esse é um livro que mostra definitivamente que Moacyr Scliar veio do estado do Rio Grande do Sul, afinal seu conteúdo regionalista e os dois principais cenários que ambientam esta estória demonstram de forma nítida a situação regional do personagem e da trama. O autor é porto-alegrense, e a cidade urbana de Porto Alegre torna-se viva em sua narrativa, tanto com suas belezas e importância histórica, quanto com seus ratos, imundices e pessoas que vivem à margem da sociedade. O protagonista da trama, aparentemente um mendigo morando perto do Palácio Piratini em Porto Alegre, sede do poder executivo do Estado do Rio Grande do Sul, relata sua história de vida para um paulista, que não é nominado ao desenvolver do enredo. Todos os dias, ao decorrer de uma semana, o paulista deposita algumas moedas no fundo de uma lata de doces em troca de mais uma porção da história daquele gaúcho dos pampas. A narrativa é muito diferente, os diálogos do passado com os do presente se misturam em uma escrita muito sagaz de Moacyr Scliar. O humor é presente em todo o relato, mesmo que muitas passagens sejam marcadas pelo sádico e pelo horror. O plano de fundo da linha temporal do passado são os anos antes da ditadura, quando a situação política do Brasil era muito delicada e instável. Jânio Quadros havia renunciado, depois de apenas sete meses de governo; Leonel Brizola movimentava o povo no Rio Grande do Sul; os militares acreditavam que Jango tinha relações com o partido comunista, etc. Mesmo com um plano de fundo muito agitado, eu diria, Mário, o protagonista da estória, conta que enquanto jovem e estudante de Direito, pouco se interessava sobre o que estava acontecendo no cenário político de seu país. Começa a relatar sua história desde o início, quando vivia nos pampas gaúchos, tinha uma queda por sua professora de Francês, praticava esgrima e mantinha relações muito estranhas com seu pai e irmão mais velho. Ao pensar na história de vida dos personagens da fazenda, consigo ver muitos estereótipos aqui do sul (moro no Rio Grande do Sul), mas que na verdade não estão completamente errados. Muitos "gaudérios" daqui são exatamente como os descritos no livro, incluindo Mário. Já vou logo dizendo que o personagem principal me fez passar muita raiva, com suas atitudes extremamente burras, impensadas, machistas e individualistas. Quando Mário decide que quer morar na capital e estudar Direito, pede para o pai custear todos os seus gastos, mesmo sabendo que a situação financeira na fazenda não era das melhores. O agora estudante de Direito vive uma vida de luxos, tem um Cadillac, mulheres, bebidas, churrascos, apartamento e um revólver na cintura. A tensão da trama aumenta muito no final do livro, e posso dizer que me surpreendi bastante com as últimas páginas; sem comentar no incrível desfecho do livro. Vocês já leram algum livro do Moacyr Scliar? O que acharam? 

Cartas na rua, de Charles Bukowski.



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          Eu poderia facilmente comparar a leitura de "Cartas na rua", e acredito que todos os livros do Bukowski devido a relatos de amigos, com aquelas conversas de bar ou final de show trash de rock com os embriagados da vez. Charles Bukowski usa um alter ego, Henry Chinaski, para escrever sobre as inconstâncias de trabalhar nos correios dos EUA durante a década de cinquenta. A rotina de alguém que todos os dias bebe até às três da madrugada e começa a trabalhar às cinco da manhã, ou até mesmo o que pode acontecer se você fumar um charuto durante seu trabalho manual com cartas, etc. A narrativa de todo livro é muito pessoal, repleta de pensamento íntimos do personagem, inclusive desejos extremamente sexuais para com qualquer mulher. Henry Chinaski leva uma vida que cobra seus luxos. Grande parte da narrativa é dedicada aos acontecimentos da vida de um carteiro trabalhando para o governo federal. Trabalhando para o governo federal durante a guerra fria, vale ressaltar. Há uma passagem em que um funcionário do governo vai a sede dos correios para fazer uma propaganda anti-comunista, colocando os russos como os grandes vilões. A escrita do Bukowski é muito direta, seca, crua, simples e sem firulas. Muitos autores hoje em dia copiam seu estilo de escrita, usando os mesmos moldes de cenas ultrajantes e, digamos, provocativas. O livro é hilário, talvez um dos pontos mais fortes na minha percepção - cheguei a gargalhar enquanto lia o livro em pé esperando o café passar para ir para a faculdade, ou enquanto cozinhava alguma coisa. Bukowski é um grande beberrão letrado. Quando decide largar o trabalho nos correios, Chinaski começa a frequentar hipódromos e a apostar em corridas de cavalo. Mora junto com sua namorada, proveniente de família rica, em uma casa cercada por grama e mosquitos no interior do estado. Perde a esposa, perde o cachorro, perde os passarinhos, volta para a cidade, volta a trabalhar nos correios, mas o que não muda são as bebedeiras e situações vergonhosas no trabalho. Achei incrivelmente engraçado quando um dos seus colegas de trabalho decide que quer virar escritor, e pede para o próprio Chinaski ler uma primeira edição do que seria o original enviado para as editoras. Chinaski odeia alguns diálogos, e simplesmente não entende a ideia romântica de um encontro apaixonante que acontece no meio da história. Acho que esse comportamento do personagem com relação ao amor é um grande paradoxo para o modo que Chinaski, e acredito que o próprio Bukowski, vê a ideia de amor idealizado. Acho que Chinaski só tinha amor pelas cervejas e por cigarro mesmo - mulheres também, mas da forma mais carnal e sexual possível. Não vou enganar ninguém, Bukowski é hilário, mas em alguns episódios tem uma escrita bem machista e... escrota mesmo. 


Memórias do subsolo, de Fiódor Dostoiévski



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    Tive duas oportunidades de entrar em contato com a fascinante escrita de Dostoiévski. A primeira, no terceiro ano do ensino médio, quando li "Crime e Castigo" e fiquei fascinado e consequentemente intrigado; a segunda, no segundo semestre da faculdade, quando acabei exatamente no dia de hoje de ler "Memórias do subsolo". Nos dois casos eu tomei um papel diferente de leitor frente a livros escritos por uma das mais brilhantes mentes do século XIX. Muito dessa diferente forma de julgar a leitura é a expectativa do grandioso que uma obra clássica pode gerar - pelo menos isso sempre acontece comigo. Enquanto estava lendo "Memórias do subsolo" fiquei procurando, do mesmo jeito que fiz quando li "Crime e castigo", a grandiosidade de uma história escrita por Dostoiévski. Posso dizer que em ambas as obras eu a encontrei. É notável, na narrativa e principalmente na introspecção psicológica, a diferença entre um escritor, ou escritora, que viveu sentado em uma cadeira, bebericando um café e fumando uns cigarros, quando comparado com alguém que realmente viveu as mazelas mais podres, inesperadas e absurdas da vida. Dostoiévski foi preso, condenado à morte e mandado para um campo de trabalho forçado por nove anos na Sibéria. Quando Dostoiévski escreve sobre o sentimento de quase morte, ele realmente sabe do que está falando. As introspecções psicológicas, uma das marcas mais fortes de seus romances, realmente nos faz submergir em um drama muito lúgubre do personagem. Durante os anos de trabalho forçado na Sibéria, Dostoiévski tem contato com a parte mais sórdida do ser humano, e é nessa etapa de sua vida que o autor começa seu amadurecimento espiritual. "Memórias do subsolo" foi escrito durante essa fase da vida do autor russo, uma das obras de transição, como são chamadas pelos críticos aquelas que foram escritas entre a juventude e a maturidade ("Crime e castigo", "Os irmãos Karamazov" e "O idiota" são exemplos de obras da Maturidade). Acho muito difícil escrever sobre a trama do livro em si, posso tentar escrever um pouco sobre o narrador, o que na verdade já diz muito sobre o núcleo do livro. A narrativa é em primeira pessoa, conta com uma forte introspecção psicológica, principalmente na primeira parte do livro. Nos primeiros capítulos, o protagonista, que não é nomeado ao longo do livro, demonstra ser um homem confuso e enveredado nas mazelas mais escuras da vida. O início do livro é marcado por um longo monólogo sobre como a vingança se dá na mente do ser humano, sobre a evolução da ciência, sobre o racionalismo, sobre a dor e os prazeres do personagem. A segunda parte do livro toma conta de acontecimentos na vida do inominado, principalmente sobre seus planos para tentar mostrar sua superioridade quando comparado com as outras pessoas. Em muitas passagens do livro fiquei com raiva do narrador, principalmente quando delirava sobre sua infundada vontade de arruinar a vida de certos colegas da infância. Ler Dostoiévski é uma experiência literária que precisa ser vivida antes da morte. 




    

Morangos mofados, de Caio Fernando Abreu.

Título: Morangos mofados
Autor: Caio Fernando Abreu
Ano de publicação: 1982


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     Caio Fernando Abreu consegue se renovar de forma tão orgânica, que quando leio seus contos no tempo atual sinto que poderiam muito bem ter sido escritos por mim. Quem não se identifica com os temas abordados pelo autor é quem não viveu intensamente a vida; Caio escreve sobre amor, drogas, decepções, depressão, trabalho, deveres, sentido da vida, universo, música, poesia, literatura, etc. Seus contos carregam toda a carga emocional que o escritor suportou durante sua vida, tanto pela repressão que sofreu na ditadura militar, quanto pelas experiências que teve no período que morou na Europa. 

    Em morangos mofados, um livro de contos publicado no início da década de oitenta, Caio divide seus contos em duas partes: mofo e morangos. Gostaria aqui de comentar alguns dos meus contos preferidos, porque acho demasiadamente difícil fazer uma resenha sobre um livro de contos com obras tão ímpares quanto esse livro.

    "Luz e sombra" foi o primeiro que me chamou a atenção, fique relendo até tentar encontrar alguma sentido; só depois que conversei com um amigo sobre esse conto que me "toquei" de algumas coisas. Em "luz e sombra", o narrador fita incessantemente a paisagem da janela do seu "quarto" muito pequeno, que a meu ver na verdade é uma cela de prisão; não apenas pelo tamanho, mas sim pela vontade não atingida do personagem de sair daquele lugar para poder ir à praia. Os morcegos no conto na verdade são os militares do período da ditadura, e o barulho que fazem pode muito bem ser relacionado tanto com tortura física quanto emocional. 

    "Caixinha de música" demonstra as diferentes faces que o amor pode tomar; o conto é formado por metáforas que vão se encaixando com a realidade de um casal que está deitado na cama esperando o sol nascer. Bebem com a mão esquerda e fumam com a direita, conversam sobre sonhos, tudo isso com o som de uma caixinha de música. O final desse conto é bem surpreendente, cru, e infelizmente realidade. 

    "Aqueles dois" foi um dos contos que mais me tocou; falando sobre simplesmente dois homens, Saul e Raul, um com um ano a menos que trinta e o outro com um a mais. Um que é frustrado por ter cursado Arquitetura, fica fazendo rabiscos de faces com olhos bem grandes e tem um quadro do Van Gogh em seu quarto. O outro canta, toca violão e gosta de cinema. Ambos trabalham no mesmo escritório, tentando reconstruir uma vida destruída por desilusões. Por interesses em comum, se aproximam, começam a gostar de passar o tempo um com o outro; o que acho interessante é que ambos não rotulam o que existe entre eles, é apenas um sentimento bom de compartilhar conversas, cigarros, músicas e filmes um com o outro. Os olhares dos colegas de trabalho sempre repousam sobre os dois quando estão tomando um café e conversando sobre o que aconteceu no final de semana. Não quero contar sobre o final do conto para não estragar a experiência de vocês, mas digo que é um bela obra para refletir sobre tantas coisas: amizade, amor, rotular relações, etc. 



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"Sargento Garcia" (conto do livro "Morangos mofados") - Caio Fernando Abreu

Título do conto: Sargento Garcia
Autor: Caio Fernando Abreu
Ano de publicação: 1982


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    Então, me pego em uma manhã de terça-feira lendo um dos melhores contos do Caio Fernando Abreu que já li até agora, não me surpreende o prêmio Status de Literatura que ganhou em 1980. "Sargento Garcia" se encontra na parte dos "morangos" no livro de contos "Morangos Mofados". A vida do Caio influencia toda a sua obra; suas filosofias, pensamentos, orientações e interesses formam um fio condutor que percorre todas as suas narrativas. Refugiava-se do DOPS no final da década de sessenta, também se exilou por um ano na Europa, retornando para Porto Alegre em 1974. Caio nasceu em uma pequena cidade perto da fronteira chamada Santiago, aqui no estado onde eu moro (RS); fico imaginando como um menino que nasceu em uma cidade que hoje tem cerca de cinquenta mil habitantes, deve ter se sentido sendo perseguido pela ditadura militar e ter tido que se exilar na Europa. É indiscutível que os contos do Caio são permeados por seus gostos particulares; não é  difícil encontrarmos personagens que bebem mais café do que deveriam, fumam muito, escutam Beatles e falam de astrologia. 
    Na maioria dos seus contos, a sexualidade é muito discutida, ainda mais o mundo queer e LGBT ; Caio Fernando Abreu era gay, crítico da ditadura e um formador de mentes de uma geração. "Sargento Garcia" consegue pincelar muito bem as angústias tanto do particular (personagem principal), quanto do mais amplo (a geração de jovens que viveu a ditadura militar). O personagem principal do conto, Hermes, devaneia olhando para fora da janela do local em que se apresenta para o serviço militar obrigatório. Diferente de hoje, o quadro que está na parede descasada do cômodo é o de Castelo Branco, o que nos dá a ideia de que o conto se passa provavelmente nos anos iniciais da ditadura (Castelo Branco ficou no poder de 1964 a 1967). O sargento que chama Hermes, no caso o próprio Sargento Garcia do título do conto, é austero e ríspido com sua fala, mas acaba dispensando Hermes, que afirma ter arrimo familiar e estar estudando filosofia. O conto é dividido em três partes, sendo que a primeira relata apenas isso que foi resumido nesse parágrafo. 

    A segunda parte do conto descreve a transição dos dois personagens para um plano diferente da narrativa. Enquanto Hermes desce um morro para ir até uma estação, o próprio sargento Garcia vem vindo de carro, um cigarro no canto da boca. O militar insiste que o garoto entre no carro, até que Hermes aceita a carona. Nas falas do sargento enquanto está dirigindo, conseguimos entender que ele possuía um apreço um pouco maior por Hermes, mostra-se interessado na faculdade de filosofia, e pergunta sobre o modo que o garoto vê o mundo. No carro, fica claro mais um ponto muito forte do período ditatorial, em uma das falas do Sargento: 

"... A vida me ensinou a ser um cara aberto. Admito tudo. Só não aguento comunista."

    O sargento pede para o garoto se ele não quer ir para algum lugar mais reservado, e já coloca a mão nas pernas do estudante de filosofia e recém-dispensado do exército, Hermes. Ele diz que nunca tinha feito sexo, que seria sua primeira vez, mas acaba não ficando claro se estava falando de transar pela primeira vez com um outro homem, ou se realmente foi sua primeira vez. Sargento Garcia diz que conhece um lugar, que Hermes pode seguir ele um pouco atrás para ninguém desconfiar que estão juntos.

    Na terceira parte é quando vemos o ato se concretizar, Hermes e o Sargento chegam a um quarto alugado por uma mulher chamada Isadora. Na fala de Isadora entendemos que na verdade ela é ele:

"- Isadora, queridinho. Nunca ouviu falar? Isadora Duncan, a bailarina. Uma mulher finíssima, má-ravilhosa, a minha ídola, eu adoro tanto que adotei o nome. Já pensou se eu usasse o Valdemir que minha mãe me deu?"

    Quando vão para o quarto, o sargento diz para o garoto se despir e deitar na cama; em seus olhos, Hermes conseguia ver a fúria do desejo. A cena que é relatada é muito mais de estupro do que de um sexo consentido, em passagens como: "... com os joelhos, lento, firme, ele abria caminho entre as minhas coxas, procurando passagem", ou em "... quis gritar, mas as duas mãos se fecharam sobre a minha boca.". É interessante o leitor prestar atenção à música que é cantarolada por Isadora no cômodo do lado, é um bom plano de fundo para os pensamentos de Hermes. Se tudo isso que já apresentei não é suficiente para descrever o estado de espírito do menino, o campo semântico usado para descrever o ato ilustra minha opinião. Um grande conto de um grande escritor, que como já disse em um post do Instagram (@vazios), deveria estar sendo lido no tempo de intolerância que estamos vivendo.




A ilha da infância-Minha luta (livro 3), de Karl Ove Knausgård

Título Original: Min Kamp 3
Autor: Karl Ove Knausgård
Tradução para o Português: Guilherme da Silva Braga
Ano de publicação: 2009



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by LiteraryHub
   
    Novamente a minha vontade de conhecer a Noruega apenas aumentou depois que finalizei essa leitura. O motivo de eu ter ficado fascinado pelo primeiro livro do Karl Ove, o que eu acho que não  é nenhum segredo para quem acompanha o blog desde o início, é o total despimento do autor nas páginas de suas longas narrativas. De uma forma corajosa, alguns diriam estúpida, Karl Ove fala de qualquer mazela de sua vida, porém, cabe ao leitor ter o senso crítico de analisar a obra como uma narrativa fictícia e levar em conta isso na hora de fazer a leitura. 

    No primeiro livro o escritor norueguês busca descrever a morte de seu pai, e a relação familiar antes e após o acontecimento. O segundo volume toma conta dos amores da vida do Karl Ove, de seu divórcio e novos amores, da relação com seus filhos, e de duas personalidades que o autor parece tomar em diferentes situações do cotidiano. Enquanto que no terceiro livro, o autor busca resgatar as memórias de sua infância, das mais insossas até as mais desconcertantes.

    A maioria do livro narra episódios com o intuito de criar um panorama sobre como foi a infância do autor, suas descobertas tanto sexuais quanto intelectuais, seu novo amor pela leitura, o modo que seu pai o tratava nas mais rotineiras ocasiões, o medo constante que um filho pode ter de seu pai, sua relação com amigos, criação de identidade, etc. Karl Ove diz com todas as palavras que seu pai era o homem mais temido em sua vida, o que foi esclarecido em várias passagens descritas pelo autor. Uma das mais chocantes em minha opinião, foi quando Karl Ove come duas maçãs em um mesmo dia, contrariando a ordem do seu pai. No dia seguinte, seu pai o obriga a sentar em um banquinho na cozinha e comer um número absurdo de maçãs, enquanto que ele fica apenas observando a reação do filho; beirando ao sádico, diga-se de passagem. 




    A relação do escritor nórdico com relação às mulheres começou muito cedo, em certos trechos a descrição do fascínio que ele tinha pelas garotas chega a ser cansativa. Ele narra exatamente o que chamava sua atenção em cada garota, suas vontades sexuais que estavam começando a florescer e, claro, suas decepções amorosas. O Karl Ove criança me pareceu um menino que foi muito reprimido, que tinha medo de expor sua opinião, pelo menos foi essa a visão que tive através da lente da escrita do autor. 

    Na escola, e também em sua casa, ele era chamado de "mariquinha", ou algo com o mesmo sentido, pois sempre começava a chorar quando algo de que ele não gostava acontecia. Isso me mostrou na verdade uma face diferente do autor, nunca pensei no Karl Ove como uma criança sensível, que gostava de ficar lendo às vezes por dias à fio em seu quarto, e que também gostava de conversar sobre roupas e moda.

    Karl Ove com certeza é um dos meu autores contemporâneos preferidos. 


A desumanização, de Valter Hugo Mãe.


    O primeiro livro que eu li de Valter Hugo Mãe teve o mesmo efeito de quando eu fechei a contracapa do primeiro livro do Knausgård; eu fiquei meio catatônico, não feliz, mas sim ansioso por ter conhecido mais um autor incrível, do qual eu já queria conhecer todas as obras. Talvez o Karl Ove, mesmo sendo norueguês, e o Valter Hugo Mãe, português, tenham em suas obras mais pontos em comum do que eu primeiramente imaginei. A desumanização, talvez o livro menos conhecido do autor, usa os lúgubres e belos fiordes islandeses para contar a sua história; uma história que, ao seu modo e com sua linguagem, retrata a infância, a transição da inocência para a alma corrompida do adulto, e por mais inusitado que pareça, sobre o amor. 

    É difícil imaginar uma história que começa com a morte de uma criança ser algo que mostre um dos sentimentos mais antagônicos à ela. A narrativa em primeiro pessoa nos dá a visão de mundo de uma menina de doze anos que passa pelo trauma de perder sua irmã gêmea; apenas na metade do livro descobrimos o seu nome: Halla. Durante boa parte da narrativa, Halla é apenas descrita como a filha menos morta, e Sigridur, a filha que apenas conhecemos por relatos de personagens, é chamada de a filha mais morta. Talvez um dos pontos mais fortes dessa história seja a ambientação; muitos sentimentos são explicados pelos próprios personagens através de monumentais e solitárias paisagens. Também posso dizer que a ambientação foi um dos fortes motivos que me fez começar a ler esse livro; eu tenho grande curiosidade com esses países do norte da Europa. A mesma curiosidade que me fez amar ler sobre bebedeiras e amores em uma cidadezinha da Noruega, com os livros do Knausgård, me despertou o interesse na solidão da Islândia com o Valter Hugo Mãe. Eu ainda tenho o sonho de conhecer a Islândia, e quem sabe conseguir entender tudo o que aconteceu nesse livro de uma forma mais completa ainda. 


    Além de ter que viver com a morte da irmã, e com tudo que ela deixou para trás, Halla ainda precisa viver com uma mãe que não aceitou a Islândia ter tomado uma de suas filhas. A mãe, personagem que não recebe um nome em toda a história, chega a cortar a pele da filha durante o sono. Todos os atos da mulher me levaram a crer que a Sigridur era uma espécia de filha preferida, e que o fato de Halla ter sobrevivido era um "erro", um "engano". Quando digo que a Islândia tomou a vida de uma pessoa apenas estou parafraseando os discursos de muitos personagens ao longo da narrativa. A Islândia, principalmente a pequena vila nesse específico fiorde, toma o papel não apenas de local, mas sim de personagem. Alguns colocam a culpa das decisões que tomaram no local em que vivem; e constantemente vemos Halla remoer um sentimento de angústia com o local, gerindo uma vontade de fugir para qualquer lugar. É difícil dizer a época em que a história se passa, mas eu acredito que seja no mesmo período em que o livro foi escrito (2013). Eu considerei a falta de tecnologia e de elementos da modernidade como uma das condições de morar em um local tão isolado. O antigo sonho da Halla e da Sigridur de ir morar na América foi o que me deixou mais inclinado a acreditar que a narrativa está em um ponto temporal próximo do que vivemos. 

    Acho que não cabe a mim mais falar sobre o desenvolvimento da trama, porque quero muito que vocês se surpreendam e se sintam nocauteados por alguns acontecimentos. A escrita do Valter Hugo Mãe é foda, sem mais palavras; o cara é muito poético, parece que cada frase esconde um significado muito maior do que é possível trazer. Muitas vezes durante a leitura eu simplesmente parava e ficar admirando algo que ele escreveu, repetindo aquilo na minha cabeça até achar que havia compreendido tudo. Com certeza uma das melhores leituras que eu fiz, e que fez eu afirmar o meu fascínio pelos contemporâneos. Já querendo ler tudo dele, e quem sabe conhecê-lo em alguma feira aqui no Brasil. Knausgård e Valter Hugo Mãe fizeram do meu 2018 um ano mais cheio, cheio de poesia, vivência, amadurecimento, e sim, tristeza. 

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O outono é mais bonito lá em cima. (por mim)


    O moço disse que depois da construção do restaurante tudo ia ficar melhor para nossa família, até o Floco ia ter uma ração melhor para comer. Eu gostava muito do Floco porque ele era o único gato que a mãe me deixou ficar. Ela dizia que incomodava o nariz, provocava rinite, mas eu sabia que a verdade era que faltava dinheiro para comprar comida para todos. Uns foram para amigos, outros para os vizinhos, e o Floco ficou. Eu não entendia muito o que o moço falava, ele usava palavras que eu não aprendia na escola, e a matemática dele era muito mais complexa da que eu usava para conferir o troco na feira. Eu olhava para os dentes dele, amarelos. Ele tinha uma boca que parecia não suportar a quantidade de dentes que tinha lá dentro, uns tentando tomar o lugar dos outros, sujos. Eu olhei para os dentes do meu pai apenas para confirmar o que eu já sabia: ele tinha dentes melhores e mais limpos, honestos. Mas ele tinha as mãos sujas, terra embaixo das unhas e calos no encontro dos ossos. Como alguém com tanto dinheiro tinha a boca tão suja?

    O outono era muito bonito onde eu morava, eu saía com meu moletom de frio, rosa, para fora da casa e ficava admirando as folhas vermelhas e marrons que caíam, até mesmo no pote de água do Floco. Quando o restaurante ficou pronto, lá em cima do morro, eu vi que na verdade o outono era feio aqui embaixo. Lá em cima sim que era bonito, as árvores eram cuidadas, o caminho era cuidadosamente feito para encantar os olhos dos que vinham de fora, dos que falavam engraçado, diferente do jeito que todo mundo falava na escola. Pedi pro meu pai o que era comida orgânica; eu tinha escutado uma mulher falando sobre isso saindo do restaurante no domingo. Eu não era de bisbilhotar ou ficar escutando os que falavam engraçado, mas os carros sempre passavam pela minha casa quando entravam e saíam lá de cima do morro. Eu sabia o que era feijão, porque a minha mãe plantava quando dava. Alface eu também conhecia, o vizinho vendia para nós antes de ir vender na feira. Macarrão eu adorava, mas fazia tempo que eu não comia. Carne fazia mais tempo ainda. Eu também conhecia o pão que a minha mãe fazia quase todas as manhãs, quentinho no inverno. O mel que o meu tio produzia eu também conhecia; eu adorava colocar em cima do pão quentinho e ver como ele entrava nos furinhos da fatia. Comida orgânica eu não conseguia entender o que era, mesmo quando meu pai explicou, para mim era a mesma coisa que eu comia; não vi diferença alguma. 

    Eu lembro da época em que não tinha restaurante nenhum lá em cima, quando os únicos moradores eram as ovelhas do meu pai. Eu amava abraçar elas antes do inverno, quando ainda estavam gordas de pelo. Desde que o moço com a boca suja veio lá em casa, nunca mais vi as ovelhas. Desapareceram quase mais rápido que os irmãos do Floco. Antes eu podia correr e brincar por aquelas terras, correr atrás das ovelhas e ficar brincando com o filho do vizinho; mesmo com a minha mãe dizendo que menina jovem assim não devia ficar sozinha com menino; eu ficava pensando se o pai dele falava a mesma coisa sobre mim. Eu nem gostava tando dele, chamava para brincar pela companhia. Depois que o restaurante chegou, meu pai disse que eu não podia subir mais lá. A terra não é mais nossa. Agora eu não brincava mais, ficava apenas olhando para os carros que chegavam; eles eram muito grandes, com certeza maiores que as ovelhas. Às vezes chegavam algumas crianças que tinham a minha idade. Uma vez eu pedi à minha mãe se eu não podia ir brincar junto com elas. Minha mãe me bateu e disse que era para eu parar de pensar em bobagem. Depois pensando melhor eu acho que ela estava certa, aquelas crianças não tinham interesse em brincar comigo. Mexiam nos celulares, e eu ficava pensando o que elas faziam tanto naquele aparelho. Eu pensei em pedir pro meu pai um celular de aniversário; mas depois eu lembrei que o Floco quase não tinha mais ração. 


by: theroseminusblack

Leitura finalizada: Frankenstein, de Mary Shelley.

   

     Eu terminei esse livro faz um tempo, tinha até decidido não comentar nada sobre a leitura; para não deixar o blog com grandes lacunas do meu ócio, decidi sentar antes de começar um trabalho da faculdade que eu estou postergando, e escrever alguns comentários. 

    Primeiramente posso dizer que o início do livro, e a sua organização, me surpreenderam muito. Nunca tinha imaginado que a história do monstro de Frankenstein começaria em São Petersburgo e acabaria ao meio de geleiras no polo norte. Todo livro é contado através de relatos em cartas, ou retratado pelos atuantes da estória; o que chamamos de romance epistolar. 

   O romance da Mary Shelley, sim é uma autora mulher que cresceu com uma mãe feminista (Mary Wollstonecraft), apresenta muitos elementos do gótico, com personagens bem explorados e horrores da mente sendo expostos. Ao ler uma obra que já foi "adaptada" para várias mídias, fica difícil não imaginar o monstro como algo já estabelecido em nossa mente.

   É muito importante atentarmos para a data que a obra foi publicada, no início do século XIX, esse que passou por uma forte e ligeira revolução industrial, com o uso visível da energia elétrica e de muitas outras formas de tecnologias extravagantes para as mentes da época. Temos que entender a mudança que a ciência começou a operar na vida da população; o mundo começou a ficar menor devido aos meios de transporte, a classe operária começou a surgir e a lotar as cidades. Com a migração da população à cidade, doenças começaram a se proliferar, gerando os grandes avanços da medicina (medicina social de Rudolf Virchow e saúde pública de Edwin Chadwick). Sem mencionar as grandes invenções do século, como: locomotiva, fotografia, anestesia, telefone, lâmpada, dirigível, automóvel, termômetro clínico, toca-discos etc. Quando deparados com essa grande revolução, os indivíduos começaram a ter a ideia de que o homem estava funcionando como um "deus"; e isso, de certa forma, foi um dos motivos que levou Mary Shelley a escrever uma obra sobre a criatura.

   O romance passa por vários momentos, uns melhores, outros piores. Para ler a obra você precisa ter em mente o ritmo totalmente diferente da literatura da época. Para mim, o ápice do livro é quando a criatura se aloja em uma cabana e começa a analisar a vida dos que a habitam, aprendendo a língua e a história do povo. A trama de gato e rato do final do livro foi bem maçante para mim.

    See you mates. 

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Clube do livro :)

   Sempre foi minha ideia manter um clube do livro, e já que não consigo reunir amigos suficientes que tenham amor pela leitura, decidi usar outros meios. Criei um grupo no Goodreads do Outside the cafe, no qual todo mês (eu espero) vamos ler (eu espero) um livro votado pelos integrantes do grupo (podemos ver melhor como vai ser organizado com o passar do tempo; adoraria ouvir a opinião de todos. O grupo vai ser uma democracia). Nunca usei a plataforma do Goodreads para grupos, mas acredito que todos podem fazer posts, comentar, colocar fotos, fazer votações, etc (basic). Quem ainda não for meu amigo, manda um pedido de amizade no Goodreads, e envia uma mensagem dizendo que quer participar no grupo de leitura. Vou adicionando todo mundo ao passo que me mandarem as mensagens. Os gêneros dos livros sempre serão diferentes; fantasia, YA, clássico, contemporâneo, poesia, história, ficção científica, quem sabe até quadrinhos e graphic novels. See you mates. 

Meu perfil: João Vitor (só clicar)



Leitura finalizada: "O aprendiz - As aventuras do caça-feitiço", de Joseph Delaney.


   Depois de muito tempo sem ler nenhum tipo de fantasia, ainda mais do gênero YA, pegar na mão o primeiro livro de uma série de um universo fantástico foi algo, me atrevo a dizer, nostálgico. Em alguns episódios da leitura fiquei recordando de quando comecei a ler HP pela primeira vez, de como os personagens e ações eram vívidos no meu dia a dia, de como os elementos da narrativa se mesclavam com minha rotina.

   O enredo e a linguagem empregada são simples, temos que atentar que esse é um livro feito para o público YA; mesmo contendo alguns elementos de terror que me surpreenderam, o desenvolvimento da estória é bem previsível. Normalmente em livros de fantasia, a complexidade do universo é sustentada pelo uso de um mapa; e nesse ponto o livro carece de um. Em alguns momentos, queria saber o que fica perto de tal cidade, ou o nome de um rio ou floresta, mas tudo acabou ficando na minha imaginação mesmo.

   Tom, o nome nem tão citado do nosso protagonista, relata os acontecimentos em primeira pessoa para o leitor; o livro segue a simples e tradicional jornada do herói, pelo menos ao longo do primeiro volume da série. Tom é o sétimo filho de um sétimo filho, e a situação de viver com seis irmãos leva cada filho a ter que tomar um caminho diferente de trabalho do campo. Os filhos então se tornam aprendizes de algumas profissões que já conhecemos de outros universos com ambientação medieval, como por exemplo, o famoso ferreiro da vila com sua barba e ombros robustos.

   Sendo o sétimo filho de um sétimo filho, Tom tem o destino de ser o aprendiz do Caça-feitiço, um caçador de criaturas como feiticeiras, ogros, sombras, etc. A Sombra, uma criatura citada anteriormente, nada mais é do que um fantasma que perpetua sua existência na terra por ter passado por alguma morte traumática. Tom possui o dom, ou talvez castigo, de sentir a presença das Sombras, por algum motivo que não é revelado concretamente ao longo do primeiro livro.

   Seguindo a jornada do herói, o primeiro livro segue uma transição do personagem para um universo antes desconhecido. Senti falta de descrições mais detalhadas sobre o breve treinamento do Tom, mas talvez isso seja uma peculiaridade minha. Sempre tenho mais afinidade pelo momento de treinamento de qualquer herói. O livro não cria nenhuma ambientação muito singular, utilizando alguns elementos já muito explorados, como bruxas/feiticeiras e toda a mitologia já conhecida por trás disso.

  Confesso que queria ter lido o livro no original, mas acabei pegando a edição da biblioteca para ver qual é que era dessa série. Se eu for continuar a leitura dos outros livros, quero tentar comprar as edições originais. O livro apresenta, ao menos a edição que eu li, com erros de pontuação. A tradução foi feita por Lia Wyler, a mesma tradutora de todos os livros do Harry Potter aqui no Brasil; mas confesso que não posso comentar mais nada sobre isso (~preguiça feels like~).


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Leitura finalizada: "The perks of being a wallflower" / "As vantagens de ser invisível", de Stephen Chbosky.


Wallflower
a a person who from shyness or unpopularity remains on the sidelines of a social activity (such as a dance)

b a shy or reserved person

          É muito difícil não sermos influenciados por outras mídias quando consumimos uma obra que já havíamos conhecido antes; e no meu caso isso não foi diferente com este livro. Antes de ler "The perks of being a wallflower" eu já havia assistido ao filme, e gostado muito por sinal.  Talvez esse seja um daqueles singulares momentos em que prefiro o filme ao livro. Não quero entrar muito no quesito cinematográfico, mas existe sim uma diferença de qualidade (e talvez de mensagem) entre as duas produções. 

          A narração é estruturada em formato de cartas escritas pelo Charlie, com um destinatário não definido (Charlie apenas começa todas as cartas escrevendo 'dear friend'). Existem muitos debates em fóruns na internet discutindo para quem as cartas são destinadas, e posso dizer que tenho duas teorias (no final do post escrevo um pouco mais sobre isso). As cartas, narradas em primeira pessoa na maior parte do tempo, contam com uma linguagem muito simples, marcada pela insegurança, depressão e os sentimentos mais autorais, singulares e honestos de um adolescente que sofreu muito nos primeiros quinze anos de vida.

fiquei esperando o Charlie falar de 'Heroes' do Bowie, mas essa foi uma das modificações do filme mesmo. 

          O livro cobre o período de um ano na vida de Charlie, inicialmente muito marcado pela transição para o High school, a nova vida de freshman, rodeado por pessoas estranhas, sentado na cafeteria sem saber com quem conversar, e lidando com a morte de duas pessoas queridas na bagagem emocional. A primeira, a de sua tia, a qual Charlie nunca havia conseguido realmente superar, tentando encontrar explicações e culpa em si mesmo. A segunda, a de um de seus únicos amigos, Michael, o qual conhecemos apenas por alguns relatos das cartas de Charlie, e descobrimos que havia cometido suicídio. A situação de Charlie com sua tia talvez seja algo que eu não deveria escrever sobre aqui, se você já leu o livro sabe por que. Primeiramente porque esse pode ser um livro muito delicado para alguns, com tópicos enraizados em problemas sérios. Mas, digamos que a morte da sua tia não foi o que mais influenciou a vida de Charlie, mas sim o que ela fazia enquanto viva. 

          Os problemas são sutis, muitos estão escondidos na escrita de Charlie, e nós como leitores devemos ler nas entrelinhas para entender algumas motivações e a índole do personagem principal. Eu não sou psicólogo/psiquiatra/terapeuta, e admiro muito o trabalho desses profissionais, mas acredito que o livro pode ter um resultado negativo na vida de algumas pessoas que passaram por qualquer situação retratada no livro (estupro, abuso, suicídio, morte), e talvez o modo "raso" que o livro retrata alguns momentos delicados, não seja a melhor maneira de abordar esse tipo de assunto em qualquer literatura. 

          Os amigos que Charlie acaba fazendo são todos seniors, e acabam virando o grande suporte para o nosso narrador. Patrick (que na produção cinematográfica recebe um ator INCRÍVEL), Sam, Mary Elizabeth, Alice, Bob, e seu professor de literatura, Bill. A maioria dos personagens é bem estruturada, tirando alguns como Alice e Bob, os quais apenas recebemos algumas informações através das cartas. Mesmo com as poucas menções ao Bob, ri muito de alguns episódios com o chapadão da turma hahaha.

          Não faltam menções a filmes, músicas e livros na obra. Alguns livros que eu lembro: "The catcher in the rye", "To kill a mockingbird", "On the road",... Por se passar na década de noventa, fui apresentado a algumas músicas que não conhecia, e outras que já curtia muito. Sem esquecer de mencionar as milhares de vezes em que Charlie menciona 'Asleep' do The Smiths. Posso destacar duas que gostei muito, uma delas do Smashing pumpkins:




          Meu último recado é para quem está estudando a língua inglesa: leiam no original! O livro conta com um vocabulário muito acessível, e a forma que a narrativa é escrita facilita muito o entendimento do leitor (principalmente se essa for a sua primeira leitura em Inglês). Não posso dizer como ficou a tradução porque não tive nenhum contato com a versão em Português, mas com certeza perdeu um pouco da essência em muitos momentos em que Charlie usa vocabulários e insights da cultura americana (mates, aceitem, alguns elementos não 'aceitam' ser transportados de língua/cultura, e acabam perdendo a essência quando são interpretados de outra forma). See you mates.


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(Minha teoria sobre o destinatário das cartas)

          A primeira, e mais boring, seria que as cartas são escritas para o leitor. A segunda, mais interessante mas que não conta com tantos argumentos de suporte, é que Charlie estava escrevendo para aquele garoto que tinha o armário perto do seu no final do livro. Quando ele se apresenta para o menino e apenas recebe um "eu sei...", fiquei pensando que poderia ser aquele o destinatário. O motivo? Talvez seja uma pessoa que não critique o Charlie por não estar em seu convívio, e escrever para ele seria como escrever para um estranho. 

Vocês já leram o livro? O que acharam? Algum tópico para discussão? 



Leitura finalizada: "Um outro amor", de Karl Ove Knausgård.

          Chegou a hora de eu sentar e tentar colocar em palavras mais uma miscelânea de emoções que foi a leitura do segundo livro da série "Minha luta" de Karl Ove Knausgård, "Um outro amor". Existem dois elementos que chamam a minha atenção quando pego um livro na mão, antes de tudo a capa, e consequentemente o título da obra. Quando li o primeiro livro do Karl Ove foi algo totalmente inesperado, estava simplesmente passando pelos corredores da biblioteca quando vi um nome estranho escrito em uma língua diferente, e com uma capa que expressava muito dos sentimentos que eu estava sentindo naquele período. Olhando apenas para isso já consigo exaltar uma grande diferença entre os dois primeiros livros; "A morte do pai" e "Um outro amor". Enquanto que no primeiro acompanhei um mundo de descobertas, tristeza, solidão, e obviamente como diz o título, o modo que o autor encara a morte; na leitura do segundo livro, "Um outro amor", senti um Karl Ove diferente, em uma fase da vida totalmente estranha àquela que me foi apresentada anteriormente.

fonte: the globe and mail.


          Se a morte é o tema que abre a série de livros "Minha luta", o amor familiar é o cerne do segundo volume do autor. Nesse encontrei um Karl Ove que deixou muitas coisas de lado para se dedicar simplesmente aos três filhos, mas ao mesmo tempo um homem que possui muitos debates psicológicos com ele mesmo. O jeito que ele retrata os filhos chega a ser engraçado em alguns momentos, sombrio em outros, e normalmente com um ar desajeitado. O livro é marcado por muitas mudanças; um divórcio inicial, moradia em um novo país, novos amores, a chegada de um filho e novos amigos. Novamente fazendo um contraponto entre os dois livros que li, posso dizer que o clímax emocional do primeiro é certamente a morte do pai de Karl Ove, enquanto que no segundo me deparei com um momento muito diferente da morte, na verdade o seu oposto, o nascimento. Páginas e páginas sobre o dia em que a primeira filha do nosso narrador nasceu podem ser consideradas o ponto alto do livro. Nesse consegui sentir toda a emoção aflorando na escrita, e fiquei pensando em como deve ser conseguir ler em Norueguês no original. 


          "E no fundo, se colocassem uma faca na minha garganta, a escrita vinha em primeiro lugar" ("Um outro amor", Karl Ove Knausgård)


          Acho que esse pequeno fragmento consegue levantar muitas questões sobre o íntimo do autor, ainda mais sobre os nossos desejos. O que mais me fascina na escrita desse cara é o poder de reflexão que a maioria das coisas que ele escreve tem sobre a minha vida. Será que eu estou fazendo aquilo que eu realmente gosto, ou estou fazendo aquilo que dizem que eu deveria gostar? Por mais que Karl Ove ame sua família, existe algo em sua mente que diz que nem sempre aquilo é o mais importante para ele. Uma pessoa que nasce, cresce, conhece, estuda, perde, ganha, bebe, fuma, chora, sorri, ama, odeia com certeza não é a coisa mais simples de ser categorizada. 


"Malte, lúpulo, água. O campo, o prado, o riacho. E assim era em relação a tudo, no fundo" 
("Um outro amor", Karl Ove Knausgård).


          O modo que todas as pequenas coisas são analisadas pelo olhar crítico da narrativa é incrível para mim, ir ao pub e tomar uma cerveja consegue se tornar um modo de explicar toda a fundação humana; posso não entender muito de literatura e escrita, mas eu acho isso do car****.

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Leitura finalizada: "The fellowship of the ring" / "A sociedade do anel", de J. R. R. Tolkien.

   A leitura do primeiro livro de The lord of the rings (na verdade releitura, a primeira vez eu li em Português) não foi nada rápida, e não posso dizer que em todos os momentos foi prazerosa. Meu principal objetivo ao ler a obra foi perceber como era o nível de Inglês da escrita do Tolkien, e como algumas estruturas funcionavam na criação do autor. Hoje, ao ler a última página da estória fantástica que deu origem ao que muitas pessoas amam atualmente, fiquei pensando em como meu gosto literário mudou e continua mudando todos os dias. Havia um tempo em que eu lia apenas fantasia, e ficava sem olhos para qualquer outro tipo de literatura. Ultimamente não estou conseguindo imergir em nenhum universo fantástico, então fico com livros contemporâneos mesmo. O fato de que eu, como indivíduo, mudei muito ao longo dos últimos dois anos é uma ótima explicação para o meu gosto com relação aos livros ter mudado.

   Em muitos momentos esse é um livro de fôlego, e recomendo você ler no original apenas se tem uma afinidade maior com a língua; as descrições intermináveis do Tolkien (principalmente da geografia do local; nunca li tantas palavras que se referem à campo), vocabulário de um Inglês Britânico que entrou em desuso e o ritmo mais lento característico do livro podem tornar o "passo" da leitura complicado (sem falar das canções, que eu sempre tinha que respirar fundo para não pular). 

   Um crédito necessário que devemos dar a este clássico (sim, é um livro clássico, até estudamos brevemente na faculdade) é o da originalidade e criatividade do Tolkien. Simplesmente olhando para o mapa da Middle-Earth já conseguimos ter uma ideia do vasto universo (Cada montanha, vale, rio, riacho, floresta, raça, povo, história, etc). Acho que descrever a trama aqui no blog seria, no mínimo, perda de tempo; acredito que praticamente todas as pessoas no mundo conhecem a estória de The lord of the rings. 

   Achei interessante como a "densidade" do livro vai aumentando conforme a trama se encaminha para o final do primeiro livro. Logo no início tudo é muito feliz, deslumbrante; a maior preocupação que nos é apresentada é a chaleira apitando para o chá dos hobbits, o nível da grama de Hobbiton, os preparativos da festa de aniversário do Bilbo e os fogos de artifício do Gandalf. 

   Alguns fatores me intrigaram pela diferença quando comparados com o filme, principalmente com relação ao passar do tempo e a idade dos personagens. O Frodo, por exemplo, tem cerca de cinquenta anos no primeiro livro. Depois de o Bilbo desaparecer no final de sua festa, passam-se trinta anos até que o Gandalf volte para Hobbiton com a notícia do anel. Obviamente alguns personagens ficaram exclusivos para os livros, como Tom Bombadil (que eu nem achei um personagem tão chato como muitos haviam comentado comigo). 

   Essa foi a minha primeira leitura do mês de Março; Karl Ove Knausgård here I come. See ya mates. 

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Verdades que meu subconsciente sempre soube, mas havia esquecido de me avisar.

           
    Eu fiquei observando a tênue linha marcada pelo tempo que percorria a bochecha do homem que sentava ao volante. Não o conhecia direito; formalmente nunca tínhamos sido apresentados, mas existem algumas coisas que eu consigo entender apenas ao encontro do olhar. No dele eu sentia algo distante, reservado, inteligente. Os olhos dos quais a cor não me recordo mostravam um pai que talvez fosse endurecido pelo seu trabalho; pagava muito bem, mas em minha opinião tirava alguma coisa em troca também. A barba crescia naquela linha, e depois dela apenas a pele com o início das marcas da idade.

   Sentado, com pessoas que no ano anterior não eram minhas amigas, eu permaneci quieto por um bom pedaço do trajeto. Era noite com marcas de vento frio, eu estava indo para uma festa no meio do nada, mas enquanto sentia o ar frio que entrava pela janela aberta do motorista eu só pensava em uma coisa: aquela era a noite perfeita pra se estar sentado em qualquer outro lugar, quieto, com ou sem companhia, conversando e pensando sobre como a vida é estranha. Logo no caminho fiquei arrependido de estar indo para aquele lugar no quinto dos infernos, e a aura do homem de descendência Polaca, aquele com a linha na bochecha que eu fiquei observando até ele esgueirar seu olhar na minha direção, só piorou a situação. Havíamos passado por uma ponte, a janela aberta produzia um barulho forte devido ao vento. Será que ele realmente estava bravo e por isso estava dirigindo daquele modo? Normalmente eu odeio estar em um carro em alta velocidade, mas de algum modo aquele homem que eu havia visto apenas em alguns relances me passou uma tranquilidade absurda. Sob meu olhar tudo era mais poético à noite, até a minha cidade que consegue ser chata pra caralho.

   Cerveja? Não estava no clima de beber. Amigos? Muita saudade, saudade que eu nem sabia que estava dentro de mim. Saudades de rir de qualquer merda, de dobrar a barriga como um idiota ao lembrar as coisas que já haviam acontecido com a gente; saudades de ir mijar no mato e voltar com as melhores histórias, mas também voltar com um sentimento de impotência com relação ao tempo. A vida passa e não adianta o que a gente faça, essa merda tá acabando. Pelo menos nós temos noção disso. “Acho que a gente tá ficando velho pra isso”, um amigo com o qual já chorei junto falou naquela noite estrelada com uma lata de cerveja já quente na mão. Realmente. “Como foi que a gente se tornou os mais velhos desse lugar?” – “Essa é uma boa pergunta mate, essa porra tá passando rápido”. Até o toque no ombro ou aquele abraço mais demorado de uma garota não eram mais significativos para mim; talvez eu tenha até sido frio demais com uma delas - talvez fosse o cheiro de vômito do lugar, ou do esterco das ovelhas. Mas, mesmo com a música horrível e com o cheiro de cigarro mentolado misturado com bile; ter estado lá no meio de tantas pessoas serviu para alguma coisa. Eu disse coisas que nunca teria dito se eu estivesse cercado pelo silêncio, verdades que meu subconsciente sempre soube, mas havia esquecido de me avisar.  

Leituras atuais



   Já quero começar dizendo que estou lendo tantas coisas ao mesmo tempo, que estou começando a pensar em aumentar o grau dos meus óculos novamente. Não, nem tudo que estou lendo é romance, nem tudo é para o meu prazer; estou lendo muita coisa pra faculdade. Mas, acredito que desses livros kind of boring vocês não querem saber, então vou fazer um update bem por cima do que está acontecendo na minha vida literária. 
   Ainda lendo "The fellowship of the ring", e estou conseguindo avançar bastante diariamente na leitura. Cheguei no capítulo da reunião da comitiva do anel com o Elrond, segundo muitos já passei da parte mais densa do primeiro livro. Esse é um dos livros em Inglês que estou lendo esse mês, o segundo é um livro da Oxford chamado "How Languages are learned", puramente para fins acadêmicos. 
   Sigo com o meu incrível Karl Ove sempre antes de dormir (na verdade sempre que possível durante o dia também, já falei que amo a escrita desse cara). Estou adorando ler novamente a perspicácia do cara em discutir sobre qualquer tema, e sobre seu humor negro nas descrições da sua rotina. Também dos relatos que ele faz sobre a velinha russa que era vizinha deles enquanto Linda (mulher do Karl Ove) estava grávida. Talvez seja impressão minha, mas acho que diferentemente do primeiro livro, o segundo contém mais "devaneios" do autor, mas não no sentido ruim, mas sim filosofando sobre temas mais profundos. Mesmo com tudo isso, a escrita do Karl Ove é muito acessível e ao mesmo tempo transportadora de conhecimento e reflexão. Estou ainda na página 130 se não me engano. 


   Minha terceira leitura, também da faculdade, foi instigada por uma professora incrível que lecionou ontem à noite. Depois da aula dela tive que passar na biblioteca e pegar um livro sobre educação e conhecimento do Edgar Morin, um "francesinho" muito simpático e inteligente. 

(ainda tô querendo voltar com o meu projeto de aprender Francês)

   Vamos ver se vou conseguir manter esse ritmo de leituras, vou precisar de bastante café depois da aula. O que vocês estão lendo? See ya mates. 




Quando me perguntam o que faço da vida.

   Às vezes tudo parece estar em equilíbrio em minha vida, até o momento em que olho para dentro e me vejo perdido. A agonia de não saber aonde enfiaram o brilho da minha infância, aquele que eu segurava em minhas mãos com o mais largo sorriso no rosto. Infância não aquela na qual eu brincava na escola e aprendia um pouco sobre como funcionavam as coisas, mas aquela na qual eu acordava todos os dias com vontade dentro do peito. Infância essa que pode acometer até pessoas com a cara marcada pelo tempo, a mesma que na falta deixa a face sem sentido e cor. Falo da infância que coloca um filtro sobre nossos olhos, nossos pensamentos, nossos sonhos, tornando tudo mais aceitável.

   Durante a passagem do dia, aquele que já perdeu sentido para muitos, procuro o brilho que escorreu lentamente e sem explicação das minhas mãos, como areia, como água, como ar. Não sei quando aconteceu, nem o porquê; sei que me senti impotente, como alguém que assiste a um assalto esperando que nada de ruim aconteça. Se me perguntam o que faço da vida, respondo que procuro dar mais sentido a ela; procuro encher o bule de café e também descobrir quem vai beber desse líquido escuro. Olho para tudo com entusiasmo, e com força para não o deixar fugir de mim. 

   Não sei se gosto de voltar pra casa, não sei se quem deita sou eu ou apenas o que restou. Não sei o que espero, será que algo muda mesmo nessa vida?