Algumas ilhas de luz mantinham a escuridão afastada em alguns pontos da rua, do mesmo modo que minhas roupas mantinham o calor contido ao redor do meu corpo. Aquele cachecol preto e azul realmente conseguia cumprir o seu papel. A florista, como de costume, não havia recolhido a bosta que seu cachorro havia acabado de fazer na calçada da nossa casa; educação não era seu forte. Tirei um cigarro do maço de Camel, fiz uma concha com as mãos para proteger a chama do vento cortante e deixei a fumaça correr pela traqueia. Sempre a primeira tragada era ruim, mas depois eu fumava mais por hábito do que por vontade, do mesmo modo que bebia meio litro de café pela manhã, xícara após xícara, simplesmente pelo hábito. Eu pensava em qualquer tipo de coisa enquanto caminhava por aquelas ruas marcadas pelas folhas caídas das árvores. Apenas alguns resquícios das folhas ficavam no centro da estrada, o resto ficava aglomerado perto do meio-fio. Outono era alta temporada na serra, perdia apenas para o inverno; e eu conseguia diferenciar os berros dos turistas bêbados de vinho daqueles já usuais. No momento, enquanto olhava para os pinheiros e colocava algumas pinhas no bolso do moletom para acender a lareira pela manhã, estava pensando no meu personagem de RPG. Queria ter escolhido ser um bardo, mas todo mundo do trabalho ficava falando que eu tinha que ser um mago. Eu trabalhava em um café, que servia como pub à noite. Quando cheguei à esquina consegui ver o vapor que subia do lago com águas negras que servia como um dos maiores pontos turísticos da cidade. Uma camada de neblina cobria a extensão das águas, e a única coisa que eu conseguia pensar no momento era que esse era um local digno de um conto do Poe ou romance do Stephen King. A florista, com a coleira pendida em seu braço esquerdo, com o olhar fixo na neblina, apenas adicionava ao clima lúgubre do lago.
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Vapor condensado - folhas vermelhas (parte 1).
Era um dia de outono que poderia ser classificado como inverno; ao abrir a janela do meu quarto às dez da noite eu senti o vento cortante que trazia boas lembranças e fazia meu corpo reunir uma energia que só o frio trazia. Eu queria muito sair de casa; o frio, ao contrário do que acontece com a maioria das pessoas, apenas me motivava a sair pelas ruas marcadas pelas folhas de tons vermelhos. Eu gostava de sair e caminhar, fumar uns do maço de Camel, olhar pro vapor condensado que saía e pairava na frente da minha boca devido ao frio, prestar atenção nas casas e como tudo mudava no período da noite, observar os halos produzidos pelos postes de luz que percorriam toda a rua. Decidi que hoje, sexta-feira, dez e dezesseis da noite, eu sairia mais uma vez pelas ruas do meu bairro e ficaria apenas imerso nos meus pensamentos. Enquanto ficava com os braços apoiados na janela aberta do meu quarto no segundo andar, olhando bem de perto para as folhas da corticeira-da-serra que chegavam a tocar a janela do meu quarto, pensei que precisaria me agasalhar bem. Eu gostava muito daquela árvore, minha mãe sempre se orgulhava de falar sobre a altura que ela havia chegado, como se a beleza de uma árvore fosse medida pelo seu tamanho. Antes de me dirigir ao armário notei que a vizinha estava passeando com seu cão, o que já era de praxe mesmo nos dias mais frios, mas uma sensação de angústia andava junto com ela. O cachorro parava constantemente, também com um vapor condensado na frente do focinho, para olhar em direção à dona com uma cara de tristeza, aquela feição de impotência à frente de um problema. Quando eu olhei para a face da mulher, a florista que morava na frente de casa, notei que ela chorava. Raiva ou tristeza? Não consegui dizer. Fiquei acompanhando seu caminhar até ela sair do meu campo de visão na esquina lá embaixo. Abri o armário, peguei um moletom da editora que eu havia trabalho no meu intercâmbio para Londres; ele era todo preto com um pinguim laranja na frente, um cachecol da Corvinal que eu havia comprado no passado da infância, mas ainda usava porque havia pago trinta e oito dólares, e o resto do meu maço usual de Camel. Desci as escadas com cuidado para não acordar ninguém na casa, pisando nos locais mais macios do carpete. Abri a porta e saí para o frio.
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